quarta-feira, 8 de junho de 2016

Coisas vistas, coisas ditas

 
Giselda Leirner - Fragmentos



1
Se as aparências são falsas, se as coisas ditas


dizem só uma parte ou se revelam outra linguagem
cuja intencionalidade nos escapa, como entender

tudo isto?

Toda contradição contém em si o eu e o outro

A força do fraco, é sua negatividade

È só ouvir os pensamentos , digo eu, e os

pensamentos são a palavra que tenho dentro de mim

e a palavra não é escrita nem falada, é a palavra do

pensamento que é tudo ao mesmo tempo e é outra

coisa


2
Na ficção construir na totalidade escondida da vida

Na tragédia o crime é ou nada ou um símbolo.

Em Oblomóv a questão é narrar ou descrever,

diferentemente de Tolstoi onde os acontecimentos

sendo importantes por si mesmos são também para

relações inter-humanas

A descrição como mero objeto de composição é um

fato essencialmente moderno, mudando só com o

romantismo

Goncharov escolheu a solidão tornando-se

observador e crítico de sua sociedade sem porém

abandonar na prática os seus princípios


 
3
O artista fazendo o jogo

O lobishomem do homem

Somos usados e sabemos

Permitimos

Queremos

Garras, unhas e dentes

A força não vem de Deus

Vem do animal em nós

O que vem de Deus é...

Não


 

4
Philip Roth disse que a velhice é um massacre

Acho que é o contrário. Um porto, onde invés de sair

você entra

Viver. O que somos porque somos são perguntas

O animal não pergunta, o animal é.

Um enigma, é a morte de todos os enigmas o maior

Por que procurar?


 

5
Os artistas são sorvedouros

Se puderem, te engolem para o

Fundo de seu poço

O que acontece quando dois artistas se encontram?

É pororoca

O HUMOR EM KAFKA

APONTA EM SEUS DIARIOS:

Lemos em casa de Max( Brod ) a Metamorfose

Rimos muito


 

6
O Ser humano é o que salva e destrói o próprio ser

humano.

Deus aparece onde tudo que é belo se apresenta

ao meu olhar, ao meu sentimento de encontro.

Desaparece, diria, se oculta quando o mal aparece.

É um Deus sábio e, assim como eu que não sou

sábia, aparece quando o Bom e o Belo se revelam,

e se esconde de vergonha, quando percebe que o

homem não foi capaz de ver aquilo que criou.

A vida torna-se fascinante quando se acerca da

loucura. Não antes, nem durante a loucura, mas

perto, no seu limite. É ai que ela pode ser

reveladora.

É chegar perto do abismo.

Olhar lá dentro, mas não entrar.

Se entrar estarás perdido


 

7
Não sou intelectual, sou artista. A vida me penetra

não pela razão, mas pelas veias.

Estranho esse diálogo de força. De poder, onde um

diz: Te acalma filha, e o outro responde infantilizado,

preciso de tua proteção, e quero te proteger, e aí, é

aquele que procura sustentar o outro.


8
Trieste foi a terra recordada de minha infância,

Música, Arte couraça que me protege do mundo que

me invade e destrói. Walser existe enquanto

desaparece, e este seu desaparecimento ao se

esvair se faz mais presente, pois tudo nele é sonho

que eu sonho junto a ele.

Os desaparecidos que deixam um rosto.

Desaparecer. Não seria este nosso desejo mais

secreto?

O homem é capaz de subir aos céus quando cria.

O criador e o destruidor

Como podem coexistir? Pois sim. Coexistem

É preciso um sobre-humano esforço, uma vontade

divina, que faça dividi-los.

Dos vários pais que inventei.... Existiram, mas foram

por mim recriados.

Se eu contar a história de B, será a dele acrescida

do meu sonho. Meu sonho, por mais terrível que

seja, é o que tenho de mais meu, apesar de esquecelo

sempre

Exílio: Não ter passado, não ter história nem

religião. Não ter com os proletários, uma

solidariedade de trabalho e interesses: Nem com os

burgueses os mesmos afetos e necessidades.


 

9
Os desaparecidos que deixam um rosto.

Desaparecer. Não seria este nosso desejo mais

secreto?


 


10
O desenho, o olhar e o olho

Sobre o sacrifício

Não é mundano o rumor senão um sopro de vento,

que hora vem daqui e hora dali, e muda o nome

porque muda o lado. Dante O inferno




10
O dia do louco

é o sonho de nossa noite

Entre os dois só existe o tempo de um espaço

Os muros de Babel são a via para a porta do céu. A

esta porta não nos é dado acesso

Os desaparecidos que deixam um rosto.

Desaparecer. Não seria este nosso desejo mais

secreto?


 


11
Nada se aproxima como os sons de Glen Gould

Variações.

As notas são gotas que não vem de instrumento. De

um lugar desconhecido para outro lá no alto, também

desconhecido.

Como transformar o compacto em transparente,

volátil, que não pertence mais a terra, uma alma

escura.


 

12
Livros. Minha mortalha. Mortalha de livros.

Minha coberta na vida morte.

Você sabe muito bem que te conheço

Por isso me odeia

Ninguém tem o direito de conhecer o outro quando

não conhece a si próprio

Alguém se conhece?

O que serão nossas verdades?

Quando virão?

Depois enterrada sob a manta dos livros em minha

sepultura, os que estarão lá fora não saberão nada

Eu tampouco.

Quem então? Quem?


 

13
O artista contemporâneo esqueceu-se de sua

condição humana, fazendo da arte um comentário

sobre a própria arte, ou um documento sócio-político

desvinculado da sua situação de abandono

individual. Hoje mais que nunca procura-se prestígio,

a fama, o dinheiro, usando-se para isso os meios de

comunicação, entre outros, verdadeiras máquinas

devoradoras

Kafka soube dar sua resposta pessoal à falta de

resposta. O que é a resposta pessoal. É a forma de

tortura que cada um de nós encontra para si próprio.

É um embate entre o eu e o mais que eu, a morte.

De onde sairei sempre perdedor. Se sou perdedor

sempre, e disso não duvido, ou aceito-me como

vencido desde o início, ou luto sabendo que vou

perder. A própria luta sendo uma forma de

existência.


 

14
Haverá um dia a plenitude da flor, e sua existência

justificar-se-á pela beleza e pelo existir,

simplesmente. O sofrimento será uma razão em si.

O amor e a música a conduzirão. Será leve,

transparente. Nada poderá detê-la no seu existir

profundo. O passado uma arca recolhida, o futuro

uma asa aberta. Com os braços desfraldados e os

pés tocando a areia, sorverá todos os perfumes e

odores, amará todas as coisas, os lagos, árvore, pão

e luz.

Invadida de claridade estará à espera do escuro para

o descanso.


 

15
Cruel conhecimento dos outros. Triste visão do todo.

Pudesse eu separar a casca do caroço e o caroço

manter diante de meus olhos a vida toda.


 

16
Dar tudo aquilo que somos. Comunicar com os

outros fazendo-os existir dentro de nós. É fazer sentir

de maneira clara e pura tanto o sofrimento como a

alegria. É captar em profundidade o mistério do ser

e expressá-lo.

Tudo isto é Arte.


 

17
De Nietzsche: One must still have chaos in one to

give birth to a dancing star.


 

18
É preciso começar pela eliminação do

desnecessário. Assim como o supérfluo pode se

relacionar ao objeto, também o pode ás falsas

relações humanas. A procura no outro se fará no

sentido da verdade (qual?). Não mais aceitar a falsa

ação, o falso conhecimento e a falsa relação.

Absolutamente não se aceitará mais a necessidade

de ser querido ou amado. Todo o resto será excesso

e verdade.

Observação objetiva. Ir somando. Não chegar nunca

à conclusões porque estas não existem.

No momento em que o homem for super-homem,

todo forrado de certezas, de couraças e capacetes

neste momento estaremos prontos para o novo

humanismo. Estaremos então mais amedrontados

do que nunca dentro de nossas construções e não

haverá mais voz que consiga atravessar o aço, o

plástico, a morte.

A lágrima humana.


 

19
Quando o horror do absurdo se apodera de nós e a

voz não sai

Só o grito preso entre os dentes moles do esforço

Tudo destruído de uma só vez

As notas leves de tempos idos e carcomidos.

Uma carcaça risonha e seca me espreita.


Hendel, Mozart, Vivaldi

Não me enganam mais. Hoje é hoje.

Sempre o fim. A cada minuto o fim.

O vazio absurdo, um grande buraco aberto no ventre

do Mundo

Os esforços, rememorações

Algo tem que brotar deste vazio,

Que não seja outro vazio


 

19
-----K esteve na Baviera como governador militar

americano no fim do mesmo ano em que lá Sebald

nasceu.

Trouxe consigo como lembrança, um enorme

quadro, uma pintura do dono do castelo em que ficou

hospedado

Sobre o portrait, cuja parte traseira continha uma

enorme swastica pintada, fez pintar seu próprio

retrato vestindo um uniforme coberto de medalhas.

Sentado em um trono com Wotan seu cachorro, que

o acompanhou até o Brasil quando veio morar em

nossa casa em alto de Pinheiros.

----Contou-me que quando partiu de seu castelo na

Baviera, foi queimada sua efígie em praça pública,

pelo ódio que tinha causado na população por ter

executado primariamente vários nazistas lá

residentes.


 

20
De que vale minha linha sensível se não sei o que

fazer dela a não ser lançá-la no papel.

Uma linguagem que não transpõe a soleira do

mundo, não será perdida?


“O ERRO DE NARCISO” É o mais pessoal e solitário


que é capaz de realizar o mais desinteressado e o



mais puro ato de comunhão.

“As coisas devolvem-nos o que nelas procuramos.



Parecem-nos indiferentes porque as olhamos com



um olhar indiferente. Mas para olhos atentos, tudo

constitui um espelho; para um olhar sincero e grave,


tudo é profundidade.” BACHELARD



 

21
Para James não há o real senão o imaginário, não



há fatos senão os psíquicos. A verdade é sempre

particular, é a verdade de alguém; por conseguinte,


perguntar se “esse fantasma existe verdadeiramente



ou não” não faz sentido, desde que ele exista para


alguém.



Nunca se atinge a verdade absoluta, estamos

condenados a nos limitar a nossas percepções e a

nossa imaginação.


 

22
Uma tentativa de organização. Onde nada se

organiza. Na poesia, na música, uma tentativa at the

still point of the turning world. La está a dança.

Quisera conhecer a dança inteira, do seu começo ao

fim, procurar o que?

Não consigo nem por um segundo desembaraçar o

pensamento. Se me fosse dado um segundo apenas

de clareza, de entendimento. Nada se explica. As

palavras são tentativas. Tudo continua sem

conhecimento. Não consigo nem intuir. Tudo me

escapa, a não ser a sensação de perda e de

perplexidade: Por quê? A única coisa que posso

fazer é perguntar.

 

23
Acabo de ler no livro de Zen que é preciso deixar a

máquina do pensamento parar e que entre um

pensamento e outro, ...........

---O que é que está pensando? Pode ser um

sentimento de responsabilidade muito grande: no

sonho.

Esta responsabilidade é sentida como peso. Ela é

real? Imaginada ou fantasiada?

Se for real, pode-se trabalhar sobre este real

modificando-o. Não será por isto que falo sempre em

ir embora. Porém ir embora, não retira o peso do

casaco, pode até aumenta-lo. Acredito que neste



ponto há uma confusão.


 

23
Bukowski, C. “O capitão saiu para o almoço”


Acho que vou comprar um processador de texto e me



tornar um escritor.


24
É necessário que se aprenda a viver sem que os

outros seres passem de nossa pele. Os contatos

devem ser casuais, sem nos tocar mais

profundamente. Deve bastar o sono, a forma, um

pensamento. A paz de tudo que vêm do humano mas

que não é do homem em particular. Natureza e Arte.

O único diálogo possível.

O ridículo das vaidades de olhos vidrados e

longínquos.

Não enganar

Não

Não

Não

Intuição---------------Arte

Conhecimento------Ordenação

É possível a independência entre os dois?

1) Observação

2) Reflexão contínua----anotação

3) Conhecimento teórico

4) Criaçãoarteconhecimento + o



pulo(intuição)



A ordenação é necessária para a boa produtividade

Não sobrecarregar nenhuma das posições

Não se perder no vago de cada uma elas. Procurar

o equilíbrio entre as quatro.


 

25
Os vários sonhos seguidos que não deixaram

imagens claras, ou possíveis metáforas, a não ser

uma, possuíam conteúdo forte de impressão muito

nítida. Era como se soubesse do que se tratava mas

não tivesse o material simbólico no qual me apoiar,

o que dificultava contar uma história. Porém ele é

mais importante assim sem história por causa da

profunda impressão que deixou.

Trata-se de uma separação de duas coisas distintas.

São sempre duas. Ambas quando juntas criam um

preso insuportável. Para poder viver sem a dor no

peito preciso separá-las. A única imagem nítida que

surgiu foi a de que eu não posso usar um vestido

grosso, e por cima um casaco grosso. Eu disse no

sonho: Se for usar um casaco grosso tenho que por

um vestido fino, e vice-versa.

Todas as outras imagens das quais me lembro só a

impressão tem a mesma qualidade: Uma

necessidade de dividir o peso. Isto me parece

importante

1º Há um peso

2º Há uma dualidade de tarefas? De imposições? De

responsabilidades?

3º Preciso tornar o fardo mais leve? Por meio de

uma, aqui falta-me a palavra.... separação?


 

26
Não existe alma transparente. Toda alma é uma

parede. O eu é desconhecido, mas o outro é enigma

maior. A dor do outro sentida por mim, é minha e não

do outro. Impossível. Tudo que é do outro é só

reflexo em mim. O outro só. Eu só... Pois sou o eu do

outro, e, portanto desconhecida. O desconhecimento

é o nosso bem ou mal maior.


 

27
Subi a montanha. Lá estavam eles. Uma mulher, um

homem.

Profundamente absortos

Ele, com ar de quem se desculpa

Ela de cabeça baixa, olhar vago, um pouco trêmula.

Desceram até a casa de campo onde a lareira ardia

Ele, saiu para caminhar

Ela entrou em seu quarto

Trancou a porta

Encheu um copo de água, e rasgando o invólucro

Arrancou os brancos comprimidos de lexotan

Tomou-os todos. Quantos? Todos

Deitou-se

Quando cheguei após o chamado aflito do caseiro,

Já se encontrava no hospital

Viveu

Não mais a mesma


 

28
No ensaio The Art of fiction, James observa que a


“qualidade mais profunda da obra de arte será



sempre a qualidade da mente de quem a produziu”.


Isto significa obviamente, que em último caso,



mesmo que queira, o autor não pode cortar o cordão

umbilical que o liga a obra criada por ele. Ele poderá

criar uma quantidade de narradores, mas é a sua

mão que produz a mágica, sua a mente que alimenta

as mentes de seus narradores. Ele é que dá o tom,

a voz, os elementos da história, a lucidez e a

imaginação.


 

29
Morrer repentinamente sem saber, dizem que é

bom.

Ser tomada de surpresa é ser enganada.

Prefiro o conhecimento

Fazer saber que Isai, K, Herman, todos os três são

meus pais, sem dize-lo explicitamente.

Conseguindo coerência e ambiguidade ao mesmo

tempo. Como escrever em claro-escuro?

Como escrever com K, sendo merecedora de tal

personagem, sem desonra-lo. É uma enorme

responsabilidade.




O livro é “Que venha a tempestade” de Paul Bowles.


Não é um grande livro mas tem algumas boas coisas.



Quando se desviou e olhou diretamente para o céu,

este parecia mais distante do que nunca. No entanto,

sentia-se muito próximo de si mesmo, talvez porque

para se sentir vivo, um homem precise primeiro

deixar de se considerar em trânsito. É necessário um

ponto final, o esquecimento de todas as metas. Uma


voz diz: “PARE”, mas ele normalmente não a



escutará, porque se parar talvez se atrase”


O que é que você acha? Esta questão de estar em



trânsito é algo que tem sempre me acompanhado.

Aliás, sempre entendi a vida como um trânsito. Para

onde, não sei. Será que parar, esquecer as metas, é

o caminho da paz?

 

30
Notas para a exposição “BABEL”


1)Fragmentação



2)Conceituar sem teorizar

3)Descrição e não análise (em texto)

4)Não sistemático

5)Dramatização de forma descarnada, seca, limpa e

direta.

 

31
Uma das metáforas para o homem moderno é o

deserto, as viagens, as relações de espaço, e

também a ideia de exilio.

Quero passar bem esta idéia de exilio

==Os pátios internos devem ser aproveitados

==Os quadros devem ser mostrados como

anotações de um mundo totalmente centrado sobre

o pensamento, a interiorização. Um mundo fechado

que vai se encontrar em um espaço de abandono.

A pinacoteca serve como metáfora para o espaço

de abandono que vai receber estas anotações

pessoais sobre o abandono pessoal.

==focalizar cada quadro como se fossemos

penetrar num buraco

==Espaço vazio de pessoas

==A minha voz só vai aparecer em off nos espaços

designados por mim. Nos pátios internos e nunca

perto dos quadros.

Não procurar relações entre os temas dos quadros

e símiles.

P.Ex: Não há nada entre a cidade ou uma torre

qualquer e a torre de Babel
 

32
O assunto é tudo, este grito de Henry James é



patético e o auxílio que Borges lhe oferece não é

de uso fácil, quando este cita o Processo entre as

obras modernas mais dignas de admiração pelo

assunto

 

O que é o assunto? Diz Maurice Blanchot:” Dizer

 

que um valor de um romance reside no valor de



sua intriga, no poder de atração de seus motivos,

eis uma afirmação que não é tão tranquilizadora.

O mesmo é dizer que seu valor não reside na

verdade dos personagens, nem no realismo,

psicológico ou exterior: que não deve confiar na

imitação do mundo, da sociedade, ou da natureza

 
para reter o interesse do leitor.”




33
Um romance de assunto é pois, uma obra



misteriosa e liberta de toda a matéria: uma

narrativa sem personagens, uma história para a

qual o quotidiano sem história e a intimidade sem

acontecimentos, esse fundo tão comodamente

disponível, deixaram de servir, e além disso uma

história de onde não basta que os

acontecimentos desenrolem segundo a sucessão

superficial ou caprichosa, episódios como que se

sucedem uns aos outros episódios como nos

romances picarescos, mas forma um conjunto

unido, rigorosamente ordenado de acordo com

uma lei tanto mais importante quanto permanece

oculta, como o centro secreto de tudo


34
Dia 28 de dezembro de 1989

 

Terminei de ler “Sobre as falésias de Mármore”

 

de Ernest Junger.



Livro maravilhoso, Auf Den Marmorklippen,

traduzido para o português em edição de Lisboa.

Ernest Junger nasceu em Heidelberg em 1895

 

Tinha lido dele “Les Chasses Subtiles” em edição

 

francesa mas não encontro mais o livro.



Autobiográfico, lembro-me das descrições de

jogos de xadrez e de caças as borboletas.

Junger era interessado pela zoologia, botânica e

geologia o que confere às suas descrições uma

perfeição que diria científica se não fosse pura

poesia. Uma estrutura rigorosa com fulgurações

de asas de borboleta.



 

 35
Árvore- forca- “A forca em minha casa eu fiz para




mim”

 

Nemrod- Efialte- Briareu

 

“Oh eternamente fatigante manto”



“A ti convém seguir outra viagem, para escapar

deste lugar selvagem”

 

O mundo é um enorme enigma cujo tema é o



tempo.

Odradek- o emblema de uma arte que supera a

mortalidade do arista

Bab-EL: Porta de Deus

Corpo e humilhação



 

36
Com F, aprendi a amar a poesia. Eu que vinha de



ignorância de existência desconhecida, passei a ler

poetas e neles novamente encontrar meu espelho

perdido. Reconheço que me encontro desolado, e

não gosto de me ver assim enfraquecido.

Desejo voltar ao que era antes de ter me tornado a

imagem refletida do poeta.

Resolvi voltar ao que fui antes, na esperança de que

o tempo passado com ele, voltasse de onde veio e

me deixasse em paz.

Não sou poeta, sou veterinário, lido com bichos, e

assim quero que seja. Escrever poesia, nada tem a

ver com minha profissão, minha pesquisa. Mesmo

assim o trabalho científico nunca impediu que algo

de mais profundo passasse a existir no

relacionamento com os bichos.

O seu mistério era uma pergunta que vinha entre a


relação do meu olhar com o do bicho. “Não havia


linguagem, a palavra que me ajuda na compreensão


não vinha”.



37
Quinta feira, 28 de dezembro de 1989



O fim de Nicolae e Elena Ceausescu

Bucareste Rictus, explosões de fúria, instantes de



estupefação e alguns momentos de insônia, gestos



afetuosos do conducator para com sua mulher. O

drama dado foi transmitido pela TV ao vivo.

Assim, na noite de terça para quarta-feira, os

romenos assistiam ao processo sumário perante um

tribunal militar de Nicolae e Elena Ceausescu, que

durante 25 anos foram seus senhores absolutos.

Foram imagens chocantes de dois ex-todopoderosos

que, pouco a pouco, compreendiam que

a morte os esperav ao final do rápido processo.


 

38
O homem sempre procurou respostas para as

questões fundamentais sobre sua condição no

mundo. O que sou, de onde venho, para onde vou, e

o porquê de nosso sofrimento. Desde a mais remota

antiguidade foram dadas respostas através da

religião, da filosofia e da arte. Cada artista procura

dar sua resposta pessoal a estas questões. A

resposta pessoal é um embate entre o eu e o mais

que eu (a morte), e esta luta é forma de existência.

O meu desenho é portanto uma tentativa de resposta

pessoal a todas estas questões.


 

39
Leitura de Marco Ferreri

Desmistificação do amor

Não é verdade que o homem nasce de um ato de

amor. O amor é uma invenção humana. Os homens

se odeiam uns aos outros: É o que vemos com o

olhar cego pois aprendemos desde a infância a

importância do amor e procuramos encontra-lo e

cria-lo segundo moldes que a religião e a ética nos

ensinaram. O amor do homem pelo homem é uma

farsa. A família é uma união artificial criada pelo

homem por consciência e hipocrisia. O que há

debaixo desta farsa? Vontade de poder, submissão

ao poder, jogo erótico, busca de prazer, individual e

solidário sob a capa enganadora da necessidade de

união.
 

41
Sei Shonagon

  

夜をこめて



鳥のそらねは

はかるとも



 

 
42
Em Kafka há sempre uma busca de saída assim



como uma busca de entrada

Os personagens kafkianos foram condenados a

vagar na eternidade. A única saída sendo sempre a

Morte


O HUMOR EM Kafka: Aponta em seus diários: “


Lemos em casa de Max ( Buber ) , A Metamorfose.



Rimos muito.

Kafka trabalhou no último dia de sua vida na


correção de seu relato “O artista da Fome “


Em sua agonia, estão ao seu lado a mulher que o



acompanhou até o final, Dora Diamant , e seu amigo

, o Dr Klopstock .

No Sanatório de Kierling em Viena, em 3 de Junho

de 1924 Franz Kafka morre rodeado destas pessoas



 

43
Gustav Janouch conta que Kafka disse-lhe o



seguinte a respeito da relação entre o homem e o

animal:

O parentesco com o animal é bem mais fácil do que

 

com os homens […]. Cada um de nós vive atrás de

 

uma grade, que carrega consigo por toda parte. É



por isso que hoje se escreve tanto sobre o animal.

Isso exprime a nostalgia de uma vida livre e natural.

Para o homem, porém, a vida natural é a vida

humana. Isso ninguém quer ver. A presença

humana é demasiado incômoda, e por isso quer-se

dela desvencilhar-se, nem que seja só na fantasia.

 

 
44
A Morte de alguém não deveria vir como



surpresa. Porém, sempre nos surpreende.

Mais que o desaparecimento físico que

conseguimos ainda aceitar porque perder faz

parte de todo o nosso percurso humano, o mais

difícil se torna aceitar a perda de uma

inteligência. Esta perda a única que não podemos

aceitar, nós as sofremos como o escurecimento

total vindo depois de uma luz irradiante uma

chama fosforescente que nos faz ver o mundo de

uma maneira nunca antes vista, e que depois

nunca mais será vivenciada da mesma forma.



 


45
Madadayo A vida como religião Unidade com



a natureza e compaixão pelos seres.



Vendo as necessidades poucas, podendo

satisfaze-las uma das causas da angústia é

suspensa.

Saber quais as necessidades reais é já meio

caminho percorrido.

O amor à vida, a alegria e a serenidade. O

trabalho amado e bem feito. A tranquilidade das

coisas simples.

A enorme valorização do sucesso, da fama e do

prestígio, leva à morte da vida boa.


 

46
Os ovos de serpente encontram-se em qualquer

lugar, as vezes nos mais belos e aparentemente

pacíficos recantos.

Eles se aninham em gramados bem cuidados,

em fundos de piscina, em escritórios severos,

dignos e atapetados.

É difícil encontra-los nas casas de uma favela,

até que não seja impossível. Mas é raro.

É preciso esmagá-los, antes que deem à luz o

seu longilíneo e perigoso ser.



47
O Processo de Kafka

Um jogo onde de antemão todas as

possibilidades são dadas e retiradas ao mesmo

tempo e onde a inocência do acusado não

interfere na conclusão do caso.

Um caso fechado, porém aberto, pois todos

acabam fazendo parte da Corte ou

supostamente a influenciando.

O acusado desde sempre para sempre se

encontra envolto numa teia que vai o

envolvendo com a pergunta que o leitor faz.

O que aconteceria se o acusado não se

movesse. Não há uma coerção física. Ele sabe

que é acusado, mas ninguém o prende

realmente.

3 tipos de absolvição:

Definitiva (a que nunca acontece)

Ostensiva (que nunca é final)

Adiada (o caso continua sempre mas não se

move dos primeiros estágios, o que exige

contínuo contato pessoal com a Corte)


 

48
Reencontrar o eu que foi perdido na voragem do

imaginário mortal das relações afetivas.

Quando estas relações se descolam, através do

conhecimento, que se dá na consciência do

desejo, fico atordoada e só.

A solidão faz-se necessária. Ser só não é o

mesmo que ser solitário. O desejo se realiza na

solidão necessária.

Se não houver o vazio, não haverá a criação.

Não se trata de dar forma ao informe. Trata-se

de simbolizar. Simbolizo aquilo que tem um

significado dentro de mim e que espera o

momento de se realizar através da palavra ou do

desenho que crio.

Agora que o eu reificado pelo uso que eu

mesma permiti fosse feito de mim, agora que

esse eu se desloca para a consciência de um

outro eu, estou pronta para mudar e seguir o

rumo que o meu desejo aponta.


 

49
Para ser livre faz-se necessária a imposição

vinda de fora. Do Destino, da Sociedade, e da

Lei.

Contradição: a imposição como fator de

dependência. Escrever um conto com essa ideia

faz pensar nos romances japoneses.

Liberdade como movimentação possível dentro

das regras.

  

Vide Jogo de xadrez.






50

Qual é a liberdade no jogo de xadrez?


Regras do jogo; sem elas o jogo não se dá.


  
51
Minkowiski introduziu em psicopatologia a noção de



espaço vivido, juntamente com a noção de tempo

vivido.

A distância entre os objetos não são vividas de

maneira constante, independentemente das

situações subjetivas. Minkowiski descreve o espaço

claro, caracterizado pela nitidez do contorno dos

objetos, pela existência do espaço livre entre as

coisas.

Em outro tipo de espaço vivido, o espaço escuro,

não se trata de luz física, porém da sensação de

estar envolvido, apertado, oprimido por uma

obscuridade misteriosa.

Apaga-se a distância entre os objetos (distância

vivida).

O espaço vital estreita-se sem perspectivas.

Sinto-me tentada a transpor estas noções de

espaço claro e espaço escuro aos diversos

momentos e lugares da História. Acredito que

estamos vivendo um momento que poderíamos

chamar de momento de espaço obscuro.


 

52
Sonhei que estava no último andar aberto de um

grande prédio. O chão é coberto por uma colcha

que se move com alguém dentro. Uma criança ou

uma boneca.

A colcha me prende sufoca a cabeça, não respiro,

debato-me. Depois de muita luta para me

desembaraçar, consigo saltar do prédio com a

colcha em minha mão como um paraquedas.

E vou descendo, descendo, muito vagarosamente,

levemente...


 

53
Por meio de processos de abstração o homem

procura um ponto de tranquilidade em um refúgio...

A abstração segundo Jung consiste na produção de

um movimento de refluxo, de introdução dos objetos

tendo por consequência a despotencialização

desses objetos.

A psiquiatria tradicional despreza os estudos da

vivência do espaço.

A vivência do espaço e do tempo, dois parâmetros

de mesma importância para que seja entendida a

visão da realidade de outra pessoa.


 

54
PUIG CERDA- BERGA- SEU URGELL,

ESTAMARIÚ- MARTINET- BOLVIN- CONCA DE

BARBERA- EL PRATS

CHEGUEI .

AMO ESTES NOMES DA CATALUNHA

Trata-se de juntar nomes , ou lugares?

Lembranças,o sonho oculto do artista em toda parte

Lugares fortes, secos, áridos belos, idade media

presente, tão presente e vivo

Diferente das grandes cidades onde a arte do

passado é distanciada por mim


 

55
Alguém se conhece, alguém me conhece?

Construímos mentiras.

O que serão nossas verdades

Quando virão

Depois de enterrada sob a manta dos livros, em

minha sepultura,

Os que estão lá fora, nada saberão

Eu tampouco

Quem então?

Quem?



 


56
Sinfonia Trágica de Schubert

Planícies verdejantes

Terras negras

Passos que pesam e deixam sinais

Palavras- sons de presença

Voo e volta, terra que espera

Pelos passos

Virão?


 

57
Esta negação total da vida como a vivemos, que

deixa de ser sombra, pelos seus escritos, que se

afirma na sua total imaterialidade através da mais

completa representação da alma pela palavra, esta

vida me fascina justamente porque me escapa.


 

58
Drohobycz

Bruno morreu junto dos doze e poucos mil

habitantes

Hoje restam nove judeus na cidade de Drohobycz.

Eu sou um dos nove que retaram

Bruno morreu em 1942. Assassinado.


 

59
Eu sou ausente pois sou aquele que conta. Só o

conto é real

Une porte comme um livre

Ouverte,fermé

Tu passes et tu lis

Tu passes. Elle demeure


 

60
Ocorreu-me que o amor erótico da juventude possa

ser menos importante, apesar de sua intensidade,

do que o amor da criação artística, Um amor que

arde e é frio. Sua frieza pode ser sua possibilidade

maior Fogo frio? Sim. Que arde para a eternidade

enquanto o outro se extingue.


 

61
O verso é banido do grande épico ou transformado

em verso lírico, quando perde sua leveza.

Só a prosa pode então abranger o sofrimento e a

graça com igual poder. Só sua plasticidade seu

rigor não rítmico pode, com igual poder, abraçar

grilhões e liberdade.

  

 
**********************************************************

**********************************************************