
Giselda Leirner - Fragmentos
1
Se as aparências são falsas, se as coisas ditas
dizem só uma parte ou se revelam outra linguagem
cuja intencionalidade nos escapa, como entender
tudo isto?
Toda contradição contém em si o eu e o outro
A força do fraco, é sua negatividade
È só ouvir os pensamentos , digo eu, e os
pensamentos são a palavra que tenho dentro de mim
e a palavra não é escrita nem falada, é a palavra do
pensamento que é tudo ao mesmo tempo e é outra
coisa
2
Na ficção construir na totalidade escondida da vida
Na tragédia o crime é ou nada ou um símbolo.
Em Oblomóv a questão é narrar ou descrever,
diferentemente de Tolstoi onde os acontecimentos
sendo importantes por si mesmos são também para
relações inter-humanas
A descrição como mero objeto de composição é um
fato essencialmente moderno, mudando só com o
romantismo
Goncharov escolheu a solidão tornando-se
observador e crítico de sua sociedade sem porém
abandonar na prática os seus princípios
3
O artista fazendo o jogo
O lobishomem do homem
Somos usados e sabemos
Permitimos
Queremos
Garras, unhas e dentes
A força não vem de Deus
Vem do animal em nós
O que vem de Deus é...
Não
4
Philip Roth disse que a velhice é um massacre
Acho que é o contrário. Um porto, onde invés de sair
você entra
Viver. O que somos porque somos são perguntas
O animal não pergunta, o animal é.
Um enigma, é a morte de todos os enigmas o maior
Por que procurar?
5
Os artistas são sorvedouros
Se puderem, te engolem para o
Fundo de seu poço
O que acontece quando dois artistas se encontram?
É pororoca
O HUMOR EM KAFKA
APONTA EM SEUS DIARIOS:
Lemos em casa de Max( Brod ) a Metamorfose
Rimos muito
6
O Ser humano é o que salva e destrói o próprio ser
humano.
Deus aparece onde tudo que é belo se apresenta
ao meu olhar, ao meu sentimento de encontro.
Desaparece, diria, se oculta quando o mal aparece.
É um Deus sábio e, assim como eu que não sou
sábia, aparece quando o Bom e o Belo se revelam,
e se esconde de vergonha, quando percebe que o
homem não foi capaz de ver aquilo que criou.
A vida torna-se fascinante quando se acerca da
loucura. Não antes, nem durante a loucura, mas
perto, no seu limite. É ai que ela pode ser
reveladora.
É chegar perto do abismo.
Olhar lá dentro, mas não entrar.
Se entrar estarás perdido
7
Não sou intelectual, sou artista. A vida me penetra
não pela razão, mas pelas veias.
Estranho esse diálogo de força. De poder, onde um
diz: Te acalma filha, e o outro responde infantilizado,
preciso de tua proteção, e quero te proteger, e aí, é
aquele que procura sustentar o outro.
Trieste foi a terra recordada de minha infância,
Música, Arte couraça que me protege do mundo que
me invade e destrói. Walser existe enquanto
desaparece, e este seu desaparecimento ao se
esvair se faz mais presente, pois tudo nele é sonho
que eu sonho junto a ele.
Os desaparecidos que deixam um rosto.
Desaparecer. Não seria este nosso desejo mais
secreto?
O homem é capaz de subir aos céus quando cria.
O criador e o destruidor
Como podem coexistir? Pois sim. Coexistem
É preciso um sobre-humano esforço, uma vontade
divina, que faça dividi-los.
Dos vários pais que inventei.... Existiram, mas foram
por mim recriados.
Se eu contar a história de B, será a dele acrescida
do meu sonho. Meu sonho, por mais terrível que
seja, é o que tenho de mais meu, apesar de esquecelo
sempre
Exílio: Não ter passado, não ter história nem
religião. Não ter com os proletários, uma
solidariedade de trabalho e interesses: Nem com os
burgueses os mesmos afetos e necessidades.
9
Os desaparecidos que deixam um rosto.
Desaparecer. Não seria este nosso desejo mais
secreto?
10
O desenho, o olhar e o olho
Sobre o sacrifício
Não é mundano o rumor senão um sopro de vento,
que hora vem daqui e hora dali, e muda o nome
porque muda o lado. Dante – O inferno
10
O dia do louco
é o sonho de nossa noite
Entre os dois só existe o tempo de um espaço
Os muros de Babel são a via para a porta do céu. A
esta porta não nos é dado acesso
Os desaparecidos que deixam um rosto.
Desaparecer. Não seria este nosso desejo mais
secreto?
11
Nada se aproxima como os sons de Glen Gould
Variações.
As notas são gotas que não vem de instrumento. De
um lugar desconhecido para outro lá no alto, também
desconhecido.
Como transformar o compacto em transparente,
volátil, que não pertence mais a terra, uma alma
escura.
12
Livros. Minha mortalha. Mortalha de livros.
Minha coberta na vida morte.
Você sabe muito bem que te conheço
Por isso me odeia
Ninguém tem o direito de conhecer o outro quando
não conhece a si próprio
Alguém se conhece?
O que serão nossas verdades?
Quando virão?
Depois enterrada sob a manta dos livros em minha
sepultura, os que estarão lá fora não saberão nada
Eu tampouco.
Quem então? Quem?
13
O artista contemporâneo esqueceu-se de sua
condição humana, fazendo da arte um comentário
sobre a própria arte, ou um documento sócio-político
desvinculado da sua situação de abandono
individual. Hoje mais que nunca procura-se prestígio,
a fama, o dinheiro, usando-se para isso os meios de
comunicação, entre outros, verdadeiras máquinas
devoradoras
Kafka soube dar sua resposta pessoal à falta de
resposta. O que é a resposta pessoal. É a forma de
tortura que cada um de nós encontra para si próprio.
É um embate entre o eu e o mais que eu, a morte.
De onde sairei sempre perdedor. Se sou perdedor
sempre, e disso não duvido, ou aceito-me como
vencido desde o início, ou luto sabendo que vou
perder. A própria luta sendo uma forma de
existência.
14
Haverá um dia a plenitude da flor, e sua existência
justificar-se-á pela beleza e pelo existir,
simplesmente. O sofrimento será uma razão em si.
O amor e a música a conduzirão. Será leve,
transparente. Nada poderá detê-la no seu existir
profundo. O passado uma arca recolhida, o futuro
uma asa aberta. Com os braços desfraldados e os
pés tocando a areia, sorverá todos os perfumes e
odores, amará todas as coisas, os lagos, árvore, pão
e luz.
Invadida de claridade estará à espera do escuro para
o descanso.
15
Cruel conhecimento dos outros. Triste visão do todo.
Pudesse eu separar a casca do caroço e o caroço
manter diante de meus olhos a vida toda.
16
Dar tudo aquilo que somos. Comunicar com os
outros fazendo-os existir dentro de nós. É fazer sentir
de maneira clara e pura tanto o sofrimento como a
alegria. É captar em profundidade o mistério do ser
e expressá-lo.
Tudo isto é Arte.
17
De Nietzsche: One must still have chaos in one to
give birth to a dancing star.
18
É preciso começar pela eliminação do
desnecessário. Assim como o supérfluo pode se
relacionar ao objeto, também o pode ás falsas
relações humanas. A procura no outro se fará no
sentido da verdade (qual?). Não mais aceitar a falsa
ação, o falso conhecimento e a falsa relação.
Absolutamente não se aceitará mais a necessidade
de ser querido ou amado. Todo o resto será excesso
e verdade.
Observação objetiva. Ir somando. Não chegar nunca
à conclusões porque estas não existem.
No momento em que o homem for super-homem,
todo forrado de certezas, de couraças e capacetes
neste momento estaremos prontos para o novo
humanismo. Estaremos então mais amedrontados
do que nunca dentro de nossas construções e não
haverá mais voz que consiga atravessar o aço, o
plástico, a morte.
A lágrima humana.
19
Quando o horror do absurdo se apodera de nós e a
voz não sai
Só o grito preso entre os dentes moles do esforço
Tudo destruído de uma só vez
As notas leves de tempos idos e carcomidos.
Uma carcaça risonha e seca me espreita.
Só
Hendel, Mozart, Vivaldi
Não me enganam mais. Hoje é hoje.
Sempre o fim. A cada minuto o fim.
O vazio absurdo, um grande buraco aberto no ventre
do Mundo
Os esforços, rememorações
Algo tem que brotar deste vazio,
Que não seja outro vazio
19
-----K esteve na Baviera como governador militar
americano no fim do mesmo ano em que lá Sebald
nasceu.
Trouxe consigo como lembrança, um enorme
quadro, uma pintura do dono do castelo em que ficou
hospedado
Sobre o portrait, cuja parte traseira continha uma
enorme swastica pintada, fez pintar seu próprio
retrato vestindo um uniforme coberto de medalhas.
Sentado em um trono com Wotan seu cachorro, que
o acompanhou até o Brasil quando veio morar em
nossa casa em alto de Pinheiros.
----Contou-me que quando partiu de seu castelo na
Baviera, foi queimada sua efígie em praça pública,
pelo ódio que tinha causado na população por ter
executado primariamente vários nazistas lá
residentes.
20
De que vale minha linha sensível se não sei o que
fazer dela a não ser lançá-la no papel.
Uma linguagem que não transpõe a soleira do
mundo, não será perdida?
“O ERRO DE NARCISO” É o mais pessoal e solitário
que é capaz de realizar o mais desinteressado e o
mais puro ato de comunhão.
“As coisas devolvem-nos o que nelas procuramos.
Parecem-nos indiferentes porque as olhamos com
um olhar indiferente. Mas para olhos atentos, tudo
constitui um espelho; para um olhar sincero e grave,
tudo é profundidade.” BACHELARD
Para James não há o real senão o imaginário, não
há fatos senão os psíquicos. A verdade é sempre
particular, é a verdade de alguém; por conseguinte,
perguntar se “esse fantasma existe verdadeiramente
ou não” não faz sentido, desde que ele exista para
alguém.
Nunca se atinge a verdade absoluta, estamos
condenados a nos limitar a nossas percepções e a
nossa imaginação.
22
Uma tentativa de organização. Onde nada se
organiza. Na poesia, na música, uma tentativa at the
still point of the turning world. La está a dança.
Quisera conhecer a dança inteira, do seu começo ao
fim, procurar o que?
Não consigo nem por um segundo desembaraçar o
pensamento. Se me fosse dado um segundo apenas
de clareza, de entendimento. Nada se explica. As
palavras são tentativas. Tudo continua sem
conhecimento. Não consigo nem intuir. Tudo me
escapa, a não ser a sensação de perda e de
perplexidade: Por quê? A única coisa que posso
fazer é perguntar.
23
Acabo de ler no livro de Zen que é preciso deixar a
máquina do pensamento parar e que entre um
pensamento e outro, ...........
---O que é que está pensando? Pode ser um
sentimento de responsabilidade muito grande: no
sonho.
Esta responsabilidade é sentida como peso. Ela é
real? Imaginada ou fantasiada?
Se for real, pode-se trabalhar sobre este real
modificando-o. Não será por isto que falo sempre em
ir embora. Porém ir embora, não retira o peso do
casaco, pode até aumenta-lo. Acredito que neste
ponto há uma confusão.
Bukowski, C. “O capitão saiu para o almoço”
Acho que vou comprar um processador de texto e me
tornar um escritor.
É necessário que se aprenda a viver sem que os
outros seres passem de nossa pele. Os contatos
devem ser casuais, sem nos tocar mais
profundamente. Deve bastar o sono, a forma, um
pensamento. A paz de tudo que vêm do humano mas
que não é do homem em particular. Natureza e Arte.
O único diálogo possível.
O ridículo das vaidades de olhos vidrados e
longínquos.
Não enganar
Não
Não
Não
Intuição---------------Arte
Conhecimento------Ordenação
É possível a independência entre os dois?
1) Observação
2) Reflexão contínua----anotação
3) Conhecimento teórico
4) Criação—arte—conhecimento + o
pulo(intuição)
A ordenação é necessária para a boa produtividade
Não sobrecarregar nenhuma das posições
Não se perder no vago de cada uma elas. Procurar
o equilíbrio entre as quatro.
25
Os vários sonhos seguidos que não deixaram
imagens claras, ou possíveis metáforas, a não ser
uma, possuíam conteúdo forte de impressão muito
nítida. Era como se soubesse do que se tratava mas
não tivesse o material simbólico no qual me apoiar,
o que dificultava contar uma história. Porém ele é
mais importante assim sem história por causa da
profunda impressão que deixou.
Trata-se de uma separação de duas coisas distintas.
São sempre duas. Ambas quando juntas criam um
preso insuportável. Para poder viver sem a dor no
peito preciso separá-las. A única imagem nítida que
surgiu foi a de que eu não posso usar um vestido
grosso, e por cima um casaco grosso. Eu disse no
sonho: Se for usar um casaco grosso tenho que por
um vestido fino, e vice-versa.
Todas as outras imagens das quais me lembro só a
impressão tem a mesma qualidade: Uma
necessidade de dividir o peso. Isto me parece
importante
1º Há um peso
2º Há uma dualidade de tarefas? De imposições? De
responsabilidades?
3º Preciso tornar o fardo mais leve? Por meio de
uma, aqui falta-me a palavra.... separação?
26
Não existe alma transparente. Toda alma é uma
parede. O eu é desconhecido, mas o outro é enigma
maior. A dor do outro sentida por mim, é minha e não
do outro. Impossível. Tudo que é do outro é só
reflexo em mim. O outro só. Eu só... Pois sou o eu do
outro, e, portanto desconhecida. O desconhecimento
é o nosso bem ou mal maior.
27
Subi a montanha. Lá estavam eles. Uma mulher, um
homem.
Profundamente absortos
Ele, com ar de quem se desculpa
Ela de cabeça baixa, olhar vago, um pouco trêmula.
Desceram até a casa de campo onde a lareira ardia
Ele, saiu para caminhar
Ela entrou em seu quarto
Trancou a porta
Encheu um copo de água, e rasgando o invólucro
Arrancou os brancos comprimidos de lexotan
Tomou-os todos. Quantos? Todos
Deitou-se
Quando cheguei após o chamado aflito do caseiro,
Já se encontrava no hospital
Viveu
Não mais a mesma
28
No ensaio The Art of fiction, James observa que a
“qualidade mais profunda da obra de arte será
sempre a qualidade da mente de quem a produziu”.
Isto significa obviamente, que em último caso,
mesmo que queira, o autor não pode cortar o cordão
umbilical que o liga a obra criada por ele. Ele poderá
criar uma quantidade de narradores, mas é a sua
mão que produz a mágica, sua a mente que alimenta
as mentes de seus narradores. Ele é que dá o tom,
a voz, os elementos da história, a lucidez e a
imaginação.
29
Morrer repentinamente sem saber, dizem que é
bom.
Ser tomada de surpresa é ser enganada.
Prefiro o conhecimento
Fazer saber que Isai, K, Herman, todos os três são
meus pais, sem dize-lo explicitamente.
Conseguindo coerência e ambiguidade ao mesmo
tempo. Como escrever em claro-escuro?
Como escrever com K, sendo merecedora de tal
personagem, sem desonra-lo. É uma enorme
responsabilidade.
O livro é “Que venha a tempestade” de Paul Bowles.
Não é um grande livro mas tem algumas boas coisas.
Quando se desviou e olhou diretamente para o céu,
este parecia mais distante do que nunca. No entanto,
sentia-se muito próximo de si mesmo, talvez porque
para se sentir vivo, um homem precise primeiro
deixar de se considerar em trânsito. É necessário um
ponto final, o esquecimento de todas as metas. Uma
voz diz: “PARE”, mas ele normalmente não a
escutará, porque se parar talvez se atrase”
O que é que você acha? Esta questão de estar em
trânsito é algo que tem sempre me acompanhado.
Aliás, sempre entendi a vida como um trânsito. Para
onde, não sei. Será que parar, esquecer as metas, é
o caminho da paz?
Notas para a exposição “BABEL”
1)Fragmentação
2)Conceituar sem teorizar
3)Descrição e não análise (em texto)
4)Não sistemático
5)Dramatização de forma descarnada, seca, limpa e
direta.
31
Uma das metáforas para o homem moderno é o
deserto, as viagens, as relações de espaço, e
também a ideia de exilio.
Quero passar bem esta idéia de exilio
==Os pátios internos devem ser aproveitados
==Os quadros devem ser mostrados como
anotações de um mundo totalmente centrado sobre
o pensamento, a interiorização. Um mundo fechado
que vai se encontrar em um espaço de abandono.
A pinacoteca serve como metáfora para o espaço
de abandono que vai receber estas anotações
pessoais sobre o abandono pessoal.
==focalizar cada quadro como se fossemos
penetrar num buraco
==Espaço vazio de pessoas
==A minha voz só vai aparecer em off nos espaços
designados por mim. Nos pátios internos e nunca
perto dos quadros.
Não procurar relações entre os temas dos quadros
e símiles.
P.Ex: Não há nada entre a cidade ou uma torre
qualquer e a torre de Babel
O assunto é tudo, este grito de Henry James é
patético e o auxílio que Borges lhe oferece não é
de uso fácil, quando este cita o Processo entre as
obras modernas mais dignas de admiração pelo
assunto
O que é o assunto? Diz Maurice Blanchot:” Dizer
que um valor de um romance reside no valor de
sua intriga, no poder de atração de seus motivos,
eis uma afirmação que não é tão tranquilizadora.
O mesmo é dizer que seu valor não reside na
verdade dos personagens, nem no realismo,
psicológico ou exterior: que não deve confiar na
imitação do mundo, da sociedade, ou da natureza
para reter o interesse do leitor.”
Um romance de assunto é pois, uma obra
misteriosa e liberta de toda a matéria: uma
narrativa sem personagens, uma história para a
qual o quotidiano sem história e a intimidade sem
acontecimentos, esse fundo tão comodamente
disponível, deixaram de servir, e além disso uma
história de onde não basta que os
acontecimentos desenrolem segundo a sucessão
superficial ou caprichosa, episódios como que se
sucedem uns aos outros episódios como nos
romances picarescos, mas forma um conjunto
unido, rigorosamente ordenado de acordo com
uma lei tanto mais importante quanto permanece
oculta, como o centro secreto de tudo
Dia 28 de dezembro de 1989
Terminei de ler “Sobre as falésias de Mármore”
de Ernest Junger.
Livro maravilhoso, Auf Den Marmorklippen,
traduzido para o português em edição de Lisboa.
Ernest Junger nasceu em Heidelberg em 1895
Tinha lido dele “Les Chasses Subtiles” em edição
francesa mas não encontro mais o livro.
Autobiográfico, lembro-me das descrições de
jogos de xadrez e de caças as borboletas.
Junger era interessado pela zoologia, botânica e
geologia o que confere às suas descrições uma
perfeição que diria científica se não fosse pura
poesia. Uma estrutura rigorosa com fulgurações
de asas de borboleta.
35
Árvore- forca- “A forca em minha casa eu fiz para
mim”
Nemrod- Efialte- Briareu
“Oh eternamente fatigante manto”
“A ti convém seguir outra viagem, para escapar
deste lugar selvagem”
O mundo é um enorme enigma cujo tema é o
tempo.
Odradek- o emblema de uma arte que supera a
mortalidade do arista
Bab-EL: Porta de Deus
Corpo e humilhação
36
Com F, aprendi a amar a poesia. Eu que vinha de
ignorância de existência desconhecida, passei a ler
poetas e neles novamente encontrar meu espelho
perdido. Reconheço que me encontro desolado, e
não gosto de me ver assim enfraquecido.
Desejo voltar ao que era antes de ter me tornado a
imagem refletida do poeta.
Resolvi voltar ao que fui antes, na esperança de que
o tempo passado com ele, voltasse de onde veio e
me deixasse em paz.
Não sou poeta, sou veterinário, lido com bichos, e
assim quero que seja. Escrever poesia, nada tem a
ver com minha profissão, minha pesquisa. Mesmo
assim o trabalho científico nunca impediu que algo
de mais profundo passasse a existir no
relacionamento com os bichos.
O seu mistério era uma pergunta que vinha entre a
relação do meu olhar com o do bicho. “Não havia
linguagem, a palavra que me ajuda na compreensão
não vinha”.
Quinta feira, 28 de dezembro de 1989
O fim de Nicolae e Elena Ceausescu
Bucareste – Rictus, explosões de fúria, instantes de
estupefação e alguns momentos de insônia, gestos
afetuosos do conducator para com sua mulher. O
drama dado foi transmitido pela TV ao vivo.
Assim, na noite de terça para quarta-feira, os
romenos assistiam ao processo sumário perante um
tribunal militar de Nicolae e Elena Ceausescu, que
durante 25 anos foram seus senhores absolutos.
Foram imagens chocantes de dois ex-todopoderosos
que, pouco a pouco, compreendiam que
a morte os esperav ao final do rápido processo.
38
O homem sempre procurou respostas para as
questões fundamentais sobre sua condição no
mundo. O que sou, de onde venho, para onde vou, e
o porquê de nosso sofrimento. Desde a mais remota
antiguidade foram dadas respostas através da
religião, da filosofia e da arte. Cada artista procura
dar sua resposta pessoal a estas questões. A
resposta pessoal é um embate entre o eu e o mais
que eu (a morte), e esta luta é forma de existência.
O meu desenho é portanto uma tentativa de resposta
pessoal a todas estas questões.
39
Leitura de Marco Ferreri
Desmistificação do amor
Não é verdade que o homem nasce de um ato de
amor. O amor é uma invenção humana. Os homens
se odeiam uns aos outros: É o que vemos com o
olhar cego pois aprendemos desde a infância a
importância do amor e procuramos encontra-lo e
cria-lo segundo moldes que a religião e a ética nos
ensinaram. O amor do homem pelo homem é uma
farsa. A família é uma união artificial criada pelo
homem por consciência e hipocrisia. O que há
debaixo desta farsa? Vontade de poder, submissão
ao poder, jogo erótico, busca de prazer, individual e
solidário sob a capa enganadora da necessidade de
união.
Sei Shonagon
夜をこめて
鳥のそらねは
はかるとも
Em Kafka há sempre uma busca de saída assim
como uma busca de entrada
Os personagens kafkianos foram condenados a
vagar na eternidade. A única saída sendo sempre a
Morte
O HUMOR EM Kafka: Aponta em seus diários: “
Lemos em casa de Max ( Buber ) , A Metamorfose.
Rimos muito.
Kafka trabalhou no último dia de sua vida na
correção de seu relato “O artista da Fome “
Em sua agonia, estão ao seu lado a mulher que o
acompanhou até o final, Dora Diamant , e seu amigo
, o Dr Klopstock .
No Sanatório de Kierling em Viena, em 3 de Junho
de 1924 Franz Kafka morre rodeado destas pessoas
Gustav Janouch conta que Kafka disse-lhe o
seguinte a respeito da relação entre o homem e o
animal:
O parentesco com o animal é bem mais fácil do que
com os homens […]. Cada um de nós vive atrás de
uma grade, que carrega consigo por toda parte. É
por isso que hoje se escreve tanto sobre o animal.
Isso exprime a nostalgia de uma vida livre e natural.
Para o homem, porém, a vida natural é a vida
humana. Isso ninguém quer ver. A presença
humana é demasiado incômoda, e por isso quer-se
dela desvencilhar-se, nem que seja só na fantasia.
A Morte de alguém não deveria vir como
surpresa. Porém, sempre nos surpreende.
Mais que o desaparecimento físico que
conseguimos ainda aceitar porque perder faz
parte de todo o nosso percurso humano, o mais
difícil se torna aceitar a perda de uma
inteligência. Esta perda a única que não podemos
aceitar, nós as sofremos como o escurecimento
total vindo depois de uma luz irradiante uma
chama fosforescente que nos faz ver o mundo de
uma maneira nunca antes vista, e que depois
nunca mais será vivenciada da mesma forma.
45
Madadayo – A vida como religião – Unidade com
a natureza e compaixão pelos seres.
Vendo as necessidades poucas, podendo
satisfaze-las uma das causas da angústia é
suspensa.
Saber quais as necessidades reais é já meio
caminho percorrido.
O amor à vida, a alegria e a serenidade. O
trabalho amado e bem feito. A tranquilidade das
coisas simples.
A enorme valorização do sucesso, da fama e do
prestígio, leva à morte da vida boa.
46
Os ovos de serpente encontram-se em qualquer
lugar, as vezes nos mais belos e aparentemente
pacíficos recantos.
Eles se aninham em gramados bem cuidados,
em fundos de piscina, em escritórios severos,
dignos e atapetados.
É difícil encontra-los nas casas de uma favela,
até que não seja impossível. Mas é raro.
É preciso esmagá-los, antes que deem à luz o
seu longilíneo e perigoso ser.
47
O Processo de Kafka
Um jogo onde de antemão todas as
possibilidades são dadas e retiradas ao mesmo
tempo e onde a inocência do acusado não
interfere na conclusão do caso.
Um caso fechado, porém aberto, pois todos
acabam fazendo parte da Corte ou
supostamente a influenciando.
O acusado desde sempre para sempre se
encontra envolto numa teia que vai o
envolvendo com a pergunta que o leitor faz.
O que aconteceria se o acusado não se
movesse. Não há uma coerção física. Ele sabe
que é acusado, mas ninguém o prende
realmente.
3 tipos de absolvição:
Definitiva (a que nunca acontece)
Ostensiva (que nunca é final)
Adiada (o caso continua sempre mas não se
move dos primeiros estágios, o que exige
contínuo contato pessoal com a Corte)
48
Reencontrar o eu que foi perdido na voragem do
imaginário mortal das relações afetivas.
Quando estas relações se descolam, através do
conhecimento, que se dá na consciência do
desejo, fico atordoada e só.
A solidão faz-se necessária. Ser só não é o
mesmo que ser solitário. O desejo se realiza na
solidão necessária.
Se não houver o vazio, não haverá a criação.
Não se trata de dar forma ao informe. Trata-se
de simbolizar. Simbolizo aquilo que tem um
significado dentro de mim e que espera o
momento de se realizar através da palavra ou do
desenho que crio.
Agora que o eu reificado pelo uso que eu
mesma permiti fosse feito de mim, agora que
esse eu se desloca para a consciência de um
outro eu, estou pronta para mudar e seguir o
rumo que o meu desejo aponta.
49
Para ser livre faz-se necessária a imposição
vinda de fora. Do Destino, da Sociedade, e da
Lei.
Contradição: a imposição como fator de
dependência. Escrever um conto com essa ideia
faz pensar nos romances japoneses.
Liberdade como movimentação possível dentro
das regras.
Vide Jogo de xadrez.
50
Qual é a liberdade no jogo de xadrez?
Regras do jogo; sem elas o jogo não se dá.
Minkowiski introduziu em psicopatologia a noção de
espaço vivido, juntamente com a noção de tempo
vivido.
A distância entre os objetos não são vividas de
maneira constante, independentemente das
situações subjetivas. Minkowiski descreve o espaço
claro, caracterizado pela nitidez do contorno dos
objetos, pela existência do espaço livre entre as
coisas.
Em outro tipo de espaço vivido, o espaço escuro,
não se trata de luz física, porém da sensação de
estar envolvido, apertado, oprimido por uma
obscuridade misteriosa.
Apaga-se a distância entre os objetos (distância
vivida).
O espaço vital estreita-se sem perspectivas.
Sinto-me tentada a transpor estas noções de
espaço claro e espaço escuro aos diversos
momentos e lugares da História. Acredito que
estamos vivendo um momento que poderíamos
chamar de momento de espaço obscuro.
52
Sonhei que estava no último andar aberto de um
grande prédio. O chão é coberto por uma colcha
que se move com alguém dentro. Uma criança ou
uma boneca.
A colcha me prende sufoca a cabeça, não respiro,
debato-me. Depois de muita luta para me
desembaraçar, consigo saltar do prédio com a
colcha em minha mão como um paraquedas.
E vou descendo, descendo, muito vagarosamente,
levemente...
53
Por meio de processos de abstração o homem
procura um ponto de tranquilidade em um refúgio...
A abstração segundo Jung consiste na produção de
um movimento de refluxo, de introdução dos objetos
tendo por consequência a despotencialização
desses objetos.
A psiquiatria tradicional despreza os estudos da
vivência do espaço.
A vivência do espaço e do tempo, dois parâmetros
de mesma importância para que seja entendida a
visão da realidade de outra pessoa.
54
PUIG CERDA- BERGA- SEU URGELL,
ESTAMARIÚ- MARTINET- BOLVIN- CONCA DE
BARBERA- EL PRATS
CHEGUEI .
AMO ESTES NOMES DA CATALUNHA
Trata-se de juntar nomes , ou lugares?
Lembranças,o sonho oculto do artista em toda parte
Lugares fortes, secos, áridos belos, idade media
presente, tão presente e vivo
Diferente das grandes cidades onde a arte do
passado é distanciada por mim
55
Alguém se conhece, alguém me conhece?
Construímos mentiras.
O que serão nossas verdades
Quando virão
Depois de enterrada sob a manta dos livros, em
minha sepultura,
Os que estão lá fora, nada saberão
Eu tampouco
Quem então?
Quem?
56
Sinfonia Trágica de Schubert
Planícies verdejantes
Terras negras
Passos que pesam e deixam sinais
Palavras- sons de presença
Voo e volta, terra que espera
Pelos passos
Virão?
57
Esta negação total da vida como a vivemos, que
deixa de ser sombra, pelos seus escritos, que se
afirma na sua total imaterialidade através da mais
completa representação da alma pela palavra, esta
vida me fascina justamente porque me escapa.
58
Drohobycz
Bruno morreu junto dos doze e poucos mil
habitantes
Hoje restam nove judeus na cidade de Drohobycz.
Eu sou um dos nove que retaram
Bruno morreu em 1942. Assassinado.
59
Eu sou ausente pois sou aquele que conta. Só o
conto é real
Une porte comme um livre
Ouverte,fermé
Tu passes et tu lis
Tu passes. Elle demeure
60
Ocorreu-me que o amor erótico da juventude possa
ser menos importante, apesar de sua intensidade,
do que o amor da criação artística, Um amor que
arde e é frio. Sua frieza pode ser sua possibilidade
maior Fogo frio? Sim. Que arde para a eternidade
enquanto o outro se extingue.
61
O verso é banido do grande épico ou transformado
em verso lírico, quando perde sua leveza.
Só a prosa pode então abranger o sofrimento e a
graça com igual poder. Só sua plasticidade seu
rigor não rítmico pode, com igual poder, abraçar
grilhões e liberdade.

