Gorz e a cerimônia do adeus à mulher
Carta do filósofo austríaco para a esposa revela dificuldade para definir o amor, mas constitui uma prova vigorosa dele
É uma história de amor, mas também sobre a tragédia de não saber explicar filosoficamente o amor, o que, no caso do filósofo e jornalista austríaco André Gorz (1923-2007), representou ao mesmo tempo um desafio e um ajuste de contas com seu passado, antes de se decidir pelo suicídio duplo com sua mulher Dorine, em setembro do ano passado. Numa longa carta dirigida a ela e publicada um ano antes, Carta a D. (tradução de Celso Azzan Jr., Annablume/Cosac Naify, 80 págs., R$ 29), Gorz conta como conheceu e se apaixonou por Dorine, reconhecendo que nem mesmo em seus escritos mais contundentes conseguiu mostrar que o amor por sua mulher foi a razão de sua conversão existencial - em especial Le Traitre, alvo de uma autocrítica impiedosa.
DESTINO - Juntos até na morte , o de maior relevância foi sua denúncia de que o marxismo criara o culto da "luta redentora" do proletariado. Desanimado com a instrumentalização de Marx, o filósofo transformou-se num dos maiores líderes da ecologia política, propondo, então, uma revolução cultural para acabar também com os excessos do capitalismo. Para começar, foi pioneiro na defesa de uma renda básica para os cidadãos independente do trabalho, influenciando tremendamente políticos como o senador Eduardo Suplicy.
Carta a D. não fala de política. Ou melhor, fala, mas pouco. Gorz toca no tema justamente ao justificar a decisão do casal de se mudar para o campoquando a mulher Dorine foi acometida de uma aracnoidite que a impedia até de se deitar. Instalado numa casado século 19 no vilarejo de Vosnon, na região de Troyes, o filósofo revê seu passado e tenta encontrar uma resposta para a mais inquietante de todas as perguntas: por que amamos e queremos ser amados por determinada pessoas e excluímos as demais? Nem seu amigo Sartre conseguiu dar uma resposta minimamente aceitável em O Ser e oNada. Não seria ele que viria a ser o autor dessa definição, ao recapitular sua relação amorosa com Dorine, que, na época de Carta a D., estava para completar 82 anos.
Eles viveram juntos 58 anos.
A perspectiva de perder o objeto de sua adoração carregou seu peito de um ''vazio devorador".
Gorz concluía, no silêncio do campo, que amor, política e literatura ocupam um mesmo lugar. Formam uma espécie de aleph existencial, um ponto no centro do coração do homem. Sua história íntima com Dorine mostra que, nos momentos mais difíceis - o desemprego, a hostilidade política de seus detratores, o rompimento de antigas amizades -, foi a presença da mulher que deu forças à sua militância. Gorz diz com todas as letras que Dorine era o "rochedo" sobre o qual essa união estava construída. Condenada por uma doença incurável, não restava muito a ele além de seguir seus passos em direção àmorte. E, também por isso, essa carta é uma resposta a Le Traitre, em que seu juramento de amor é apenas formal, literário. Aqui, ele é para valer.. .,.
Gorz concluía, no silêncio do campo, que amor, política e literatura ocupam um mesmo lugar. Formam uma espécie de aleph existencial, um ponto no centro do coração do homem. Sua história íntima com Dorine mostra que, nos momentos mais difíceis - o desemprego, a hostilidade política de seus detratores, o rompimento de antigas amizades -, foi a presença da mulher que deu forças à sua militância. Gorz diz com todas as letras que Dorine era o "rochedo" sobre o qual essa união estava construída. Condenada por uma doença incurável, não restava muito a ele além de seguir seus passos em direção àmorte. E, também por isso, essa carta é uma resposta a Le Traitre, em que seu juramento de amor é apenas formal, literário. Aqui, ele é para valer.. .,.

