domingo, 27 de dezembro de 2009

Feliz Ano Novo

 



Coisas vistas, coisas ditas
TEXTO AQUI



Posted by Picasa

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

MEU IRMÃO NELSON


Coisas vistas, coisas ditas
TEXTO AQUI
Foto de Adolfo Leirner

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Imagem de René Burri


Coisas vistas, coisas ditasAnjos na Pont Neuf

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Fellini


Coisas vistas, coisas ditas Ai que saudade da Dolce Vita

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Sebastião Salgado


Coisas vistas, coisas ditas
TEXTO AQUI

domingo, 25 de outubro de 2009

THE MODELS


Coisas vistas, coisas ditas

ALEXANDRA SANGUINETTI
CIBACHROME

COURTESY OF SEATCHI GALLERY, LONDON

BOLSINHA DE DONDOCA




Coisas vistas, coisas ditas
MAIS UMA

domingo, 18 de outubro de 2009

Nike


Coisas vistas, coisas ditas
Design

sábado, 17 de outubro de 2009

Viva o Brasil!

Coisas vistas, coisas ditas

sábado, 10 de outubro de 2009

A HORA DO CRIME

Coisas vistas, coisas ditas
DE PETER SLOTERDIJK

É MODERNO AQUELE QUE É TOCADO PELA CONSCIÊNCIA DO FATO QUE
ELE OU ELA, ALÉM DA INEVITAVEL QUALIDADE DE TESTEMUNHA, SE ENCONTRA INTEGRADO POR UMA ESPECIE DE CUMPLICIDADE A ESTA MONSTRUOZIDADE DE UM NOVO TIPO


Se perguntamos a um moderno,” onde estavas na hora do crime ?” a resposta é : Eu estava no lugar do crime “

E isto significa: no perímetro deste monstruoso global que , como um complexo de circunstancias modernas do crime, inclui seus cúmplices pela ação, e seus cúmplices pelo conhecimento
A modernidade , é a renuncia à posssibilidade de possuir um alibi

domingo, 4 de outubro de 2009

Eu escrevo

Coisas vistas, coisas ditas
Yo escribo a falta de una mano en mi mano, a falta de dos ojos frente a los míos, a falta de un cuerpo exterior a mí sobre el cual apoyarme —un minuto siquiera— y llorar. (Lágrimas visibles, que se puedan secar, que la mano deseada pueda enjugar.)
Alejandra Pizarnik, Diarios

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Paolo e Francesca


Coisas vistas, coisas ditasAo lermos o sorriso desejado
Ser beijado por tão perfeito amante,
este, que nunca seja-me apartado,


tremendo, a boca me beijou no instante.
Foi Galeoto o livro,e o seu autor;
nesse dia não o lemos mais adiante”.


Italo Eugenio Mauro
Dante A Divina Comedia
Canto V


domingo, 27 de setembro de 2009

Nicolas de Cusa

Coisas vistas, coisas ditas
“ quem merece ver tua face vê tudo a descoberto, e nada para ele permanece escondido.
Senhor, quem te possui possui tudo; quem te vê possui tudo. Pois ninguém te vê se não te possuir.
Ora, pessoa nenhuma pode aceder a ti pois és inacessível. Pessoa nenhuma, pois, te tomará, se tu não te deres a ela.
Como posso te possuir, Senhor, eu que não sou digno de comparecer sob teu olhar ?
Mas, sobretudo, como te darás a mim, se não me destes eu mesmo a mim mesmo ?E enquanto eu me repouso no silêncio da contemplação, tu, Senhor, no seio de minhas vísceras, tu me respondes com estas palavras: “ Seja a ti mesmo e eu serei em ti “
No entanto, como serei eu mim mesmo se tu, Senhor, tu não mo ensinaste?
Ora, veja o que me ensinas : Os sentidos devem obedecer à razão e a razão deve comandar.
Quando meus sentidos servem minha razão eu sou a mim mesmo. Mas a razão não recebe sua direção que de ti, Senhor, que é o Verbo e a razão das razões. Daí eu vejo que se escuto teu Verbo que em mim não cessa de falar e de trazer continuamente sua luz em minha razão, eu serei livre e não escravo do pecado
E tu estarás comigo, e tu me farás ver tua face, e então serei salvo”
*( Nicolas de Cusa, “ De visione Dei sive de icona”. 1.453)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Feliz Aniversário


Coisas vistas, coisas ditas
Para minha filha Sheila

Amor

Coisas vistas, coisas ditas
Como não posso escrever uma tese sobre o amor, não há tempo, escrevo estes contos banais.
Quem sabe não dirão o mesmo ?


Não há dor maior do que a perda de quem se ama. Pior a perda de quem se ama e continua perto
Quando a perda é a morte, o desaparecimento físico ajuda. Mas ... quando a perda é viva? E continúa vivendo. O que dizer desta dor contínua.
Como agüentar uma dor presente, cujo esquecimento não se dá como descanso.

Eu achava que tinha um buraco no peito. Mas estou errada. O que tenho é um transbordamento.


Transformar o vivido em escrito, ou será o contrário, o escrito em vivido.

Ocorreu-me que o amor erótico da juventude possa ser menos importante, apesar de sua intensidade, do que o amor da criação artística. Um amor que arde e é frio.
Sua frieza pode ser sua possibilidade maior
Fogo Frio ? Sim. Que arde para a eternidade enquanto o outro se extingue.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Quem tem medo de poesia ?

Coisas vistas, coisas ditas
Quem trabalha para dar à poesia um lugar de destaque no cenário cultural atual – isto é, fazer com que ela seja escrita, publicada e lida por pessoas de todas as condições sociais e econômicas – enfrenta grandes resistências, tanto do mercado editorial, quanto dos próprios leitores,

ReproduçãoFernando Pessoa, um dos mais importantes poetas de todos os tempos

­Mas, se é tão difícil publicar e “vender” poesia, porque a chama não se apaga de vez? Por que as pessoas continuam descobrindo e redescobrindo novos e velhos poetas, todos os dias; escrevendo e lendo poesia, publicadas ou não; estudando a escrita poética em universidades, no mundo todo? Essas questões, mais do que provocar respostas, nos levam a reconhecer na poesia um elemento primordial, algo que sempre fez parte da nossa constituição como seres humanos, que é inerente às nossas emoções e à forma como buscamos transformar tudo o que vemos em linguagem, em imagens poéticas. É reconfortante pensar que, enquanto existirmos como humanos, o fogo da poesia continuará ardendo.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

No jardim dos Justos

Coisas vistas, coisas ditas

Aracy de Carvalho Guimarães Rosa (Rio Negro, Paraná, c. 1908) é uma senhora brasileira, segunda esposa do escritor João Guimarães Rosa. Aracy também é conhecida por ter seu nome escrito no Jardim dos Justos entre as Nações, no Museu do Holocausto (Yad Vashem), em Israel, por ter ajudado muitos judeus a entrarem ilegalmente no Brasil durante o governo de Getúlio Vargas.



Paranaense, foi morar com uma tia na Alemanha após separar-se do primeiro marido. Por falar quatro línguas (português, inglês, francês e alemão), conseguiu uma nomeação no consulado brasileiro em Hamburgo, onde era encarregada da secção de vistos.
No ano de 1938, entra em vigor, no Brasil, a circular secreta 1.127, que restringia a entrada de judeus no país. Aracy ignorou a circular e continuou preparando vistos para judeus. Como despachava com o cônsul geral, ela colocava os vistos entre a papelada para as assinaturas. Nessa época, João Guimarães Rosa era cônsul adjunto (ainda não eram casados).
Sua biografia inclui, também, ajuda a compositores e intelectuais durante o regime militar brasileiro.





domingo, 13 de setembro de 2009

Carnaval no Jardim da Luz




Coisas vistas, coisas ditas
Giselda, Nelson e primos.


sábado, 12 de setembro de 2009

Shaná Tová


Coisas vistas, coisas ditas
feliz ano novo



quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Abismo de Trevas

Coisas vistas, coisas ditas
Viemos de um abismo de trevas; findamos num abismo

de trevas: ao intervalo de luz entre um e outro damos o nome

de vida.

Tão logo nascemos, principia o retorno; partida e volta

são simultâneos; morremos a cada instante. Por isso muitos

proclamaram: O escopo da vida é a morte.

Todavia, tão logo nascemos, principia o esforço de criar, de

tramar, de fazer da matéria vida: a cada instante nascemos. Por

isso muitos proclamaram: O escopo da vida efêmera é a imortalidade.

Nos transitórios corpos vivos, lutam duas correntes: 1°a ascendente,

rumo à síntese, à vida, à imortalidade; 2° a descendente,

rumo à dissolução, à matéria, à morte.

E as duas correntes se originam no imo da substância

primeva. De começo, a vida surpreende; parece uma reação ilegítima,

desnaturada e efêmera às trevas das fontes eternas;

mas, quando nos aprofundamos, percebemos que a Vida é o

próprio curso, sem princípio nem fim, do Universo. Se assim não

fosse, de onde viria a força sobre-humana que nos lança do

incriado ao criado e nos impele - plantas, animais, homens-à

luta? As duas correntes antagônicas são pois sagradas.

Cumpre-nos, então, aceder a uma visão que articule e

harmonize estes dois prodigiosos impulsos sem princípio nem

fim, e por ela regular o nosso pensamento e a nossa ação.



Nikos Kazantzákis

Ascese



segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Bispo do Rosário

Coisas vistas, coisas ditas
Arthur Bispo do Rosário
Há uma década, precisamente, morria no rio de Janeiro, no hospital psiquiátrico Juliano Moreira, o negro Artur Bispo do Rosário. Sem receio nem comedimento, é por mim considerado o maior e mais genuíno artista brasileiro. Nenhum outro foi tão profundo na sua pesquisa pessoal. Nenhum outro foi tão universal, tão ilimitado e sagrado. Em tempo: Bispo não esculpiu santos, não decorou igrejas, nem nunca trabalhou com nenhuma espécie de tinta, telas ou cavaletes. A matéria prima de seu trabalho advinha do lixo recolhido no hospital, sucatas, restolhos e trapos de pano, que eram desfiados e posteriormente utilizado em seus bordados.
Artur Bispo do Rosário era, dentre outras coisas, um bordador de obras primas. Passou mais da metade de sua vida trancafiado no Juliano Moreira, mumificando seus objetos pessoais: escovas de dente, talheres, tesouras, etc. As loucuras de Artur Bispo do Rosário não cabem numa simples dissertação, é preciso se deparar com a sua vasta obra para se ter a dimensão de quem foi Artur Bispo do Rosário. Era um artista obcecado por jogo de xadrez, misses e geografia; um artista que, com sua sede de registros, extrapolou as dimensões da pintura e criou fantásticas vitrines com copos de alumínio, pentes de plásticos e objetos variados.
Criado por uma família rica, em Botafogo foi, quando jovem, marinheiro e lutador de boxe. Certo dia recebeu uma mensagem de Deus, de Deus, ele dizia: era o início de seu desequilíbrio mental. Internado, ele logo se intitulou xerife e passou a bater nos companheiros. Ficou recluso numa solitária, onde passou grande parte de sua vida. Segundo Bispo, Deus lhe havia pedido que "Reconstruísse o universo" e "Registrasse a sua passagem aqui na terra". Durante meio século, não fez outra coisa. Para ele, a sua obra era um desejo de Deus, mas para o crítico Frederico de Morais, que o apresentou ao mundo, tudo não passava da mais genuína arte.
Em Belo Horizonte foi criado um Centro de Convivência que leva o seu nome. De certa maneira, ao que parece, é um extensão, no que concerne ao tratamento, do Hospital Pedro II, onde existe o bem sucedido Museu do Inconsciente. Em ambos os casos, os pacientes desenvolvem práticas artísticas e os resultados são surpreendentes. Prova disto, é a exposição que se realiza na Feira de Artesanato do Minascentro, em Belo Horizonte.
Hoje o nome de Artur Bispo do Rosário já correu os quatro cantos do planeta. Os europeus se extasiaram e, desde então, o reverenciam. Sua exposição visitou as principais capitais do mundo. Em um de seus mantos, Artur Bispo do Rosário bordou o nome das mulheres que seriam salvas, por ele, no Juízo Final. Este manto deveria acompanhar-lhe na subida aos céus, cujo desejo não foi atendido. Todos os principais conceitos e seguimentos de arte moderna estão contido na sua obra. É preciso observar que Bispo, sendo interno, estava alienado do mundo e por isso a sua originalidade é incontestável. Quando, em vida, quiseram expor os seus trabalhos, ele foi enfático: "Não faço isto para os homens, mas para Deus".

Abelardo de Carvalho




domingo, 6 de setembro de 2009

Artur Bispo do Rosario

Coisas vistas, coisas ditas



Bispo do Rosário

Coisas vistas, coisas ditas
Prefácio do livro sobre a obra de Arthur Bispo do Rosário



"Minha mãe era tapeceira e restauradora e, por isso, eu cresci em volta da magia da agulha e da linha. Dela eu herdei esta idéia de reparação como uma parte de minha arte. Minha costura é uma ação simbólica contra o medo de ser separada e abandonada. Nós percebemos no trabalho de Bispo do Rosário que ele também tinha medo de perder o contato. Como Penélope e a aranha, ele passou a vida inteira fazendo e desfazendo. Ele estava buscando uma ordem no caos, uma estrutura e ritmo do tempo e do pensamento. Pode-se dizer que buscar uma garantia de sanidade é o princípio da organização atrás de todo o seu trabalho.
Eu adoro o azul de Bispo do Rosário porque o azul é uma das minhas cores. Fiquei fascinada ao saber que a linha azul que ele usava vinha do uniforme de seu hospital psiquiátrico. Ele tinha a capacidade de incorporar um objeto da sua vida de confinamento e transformá-lo num objeto simbólico de sua auto-expressão, mistério, beleza e liberdade. Louise Bougeois






sábado, 5 de setembro de 2009

Minha mãe Felicia

Coisas vistas, coisas ditas
Os homens abençoados são aqueles que penetraram grutas

profundas a procura do desconhecido - a sabedoria, a ciência,

a arte. Ao revelar o que estava escondido, ofereceram um

um banquete a aqueles cuja alma precisava deste alimento para

aliviar as dores da vida



quinta-feira, 3 de setembro de 2009

E não é ?

Coisas vistas, coisas ditas
Este deveria ser um espaço para leitores compulsivos, diletantes, apaixonados, atrevidos, viajantes...

Parafraseando Jorge Luis Borges, sempre imaginamos que o paraíso fosse uma espécie de livraria. E não é?!



quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Presente de Nilson

Coisas vistas, coisas ditas
Amigos,

Segue um video-poema de Abdelkebir Khatibi: Amour Bilíngüe. É belíssimo, vejam.
É só clicar no endereço abaixo.











terça-feira, 1 de setembro de 2009

Lembranças de Anatol

Coisas vistas, coisas ditas


Giselda Leirner

Quando me convidaram para dizer algumas palavras
sobre Anatol Rosenfeld, pensei em captar através da
memória o que foi Anatol para mim.
A memória constrói ficções, armadilhas e a verdade
já não é mais aquilo que foi. O que resta é um sentimento
no lugar de um conhecimento.
Dizer dos seus escritos críticos agudos e às vezes
irônicos que nos encantavam pela pureza do estilo e pela
inteligência? Dizer que era um intelectual cuja contribuição
filosófica e principalmente ética foi da maior importância
para a formação de nossas idéias?
Tudo isto já foi dito e quem o conheceu ou conviveu
com suas idéias já o sabe. O que eu queria era transmitir
Anatol pessoa inteira. E isso é muito difícil. A memória,
o tempo deixam-nos sombras, um gesto, uma voz que
era... Uma voz suave e segura com um ligeiro e arranhado
sotaque alemão.
O português impecável. Nunca o vi rir. Sorria, quando
muito. Severo, com um olhar meio brincalhão de
quem sabe como vai acabar a história.

Lembro-me de quando lhe entreguei alguns poemas
de adolescente e ele, com todo o respeito e seriedade, fez
anotações críticas com sua letra miúda, não deixando
transparecer, no tratamento que deu ao trabalho, nada do
pouco valor literário que este realmente continha. Lembro-
me de nossas longas discussões sobre cinema e,
principalmente, literatura. Falávamos, falávamos e sempre
acabávamos em Thomas Mann. Estas conversas vinham
como uma espécie de gratificação que nos dávamos
depois das aulas onde estudávamos, parágrafo por parágrafo,
pesados textos filosóficos. Uma outra gratificação
era o chá com bolo depois da aula, servido na copa da
casa do Jacó Guinsburg e da sua mulher Gita.
E todos nós, Gita e Jacó, Regina e Boris Schnaiderman,
Roberto Schwarz, Zulmira Tavares, Leo e Rita
Seincman e tantos outros ficávamos até bem tarde discutindo,
e o que discutíamos era tão vivo e rico como o que
tínhamos estudado.
E assim era para Anatol a vida, o pensamento, as
idéias: uma coisa única, e desta coisa única todos nós
participamos e nos enriquecemos.
Ética e Estética, Arte e Vida, Pensamento e Existência,
tudo. absolutamente integrado em uma vida de amor à
Arte e de fé no homem. A Vida de Anatol.



segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Coisas vistas, coisas ditas
A VELHA DA RUA AMARGÓS


Como um rato. Pequena, cinzenta, aconchegada numa banqueta ao fundo de sua loja. Se assim pode se chamar uma porta na parede cujo interior escuro, coberto de livros, manuscritos, mapas, exala ao mesmo tempo um cheiro de poeira e umidade. Um hálito podre vem da boca da velha. Tudo se mistura à sombra suja e amarelada. Uma lâmpada pendurada de modo precário ilumina vagamente a única mesa que ocupa quase todo o espaço. No chão, pilhas de papéis. No fundo, um buraco cavado na parede onde se presume encontrar o WC-cozinha.

Entro com um certo desgosto à procura de mapas antigos. A ratazana desdentada ainda tem um olho vivo quando se trata de uma venda.

Vens do Brasil? Tenho alguns mapas antigos. E começa a vasculhar. Vontade de fugir. Mas a curiosidade me mantém parado. Quero ir-me embora. A velha agarra meu braço. Ordena. Fique. Veja os mapas.

Não quero mais ver nada. Preciso de ar. Porém a velha me mantém preso com suas garras incrivelmente pintadas de vermelho. Também vermelho é o xale que lhe enrola o pescoço.

Tenho a estranha sensação de que não conseguirei sair.

Faço força para respirar ao mesmo tempo em que não quero respirar o cheiro fétido. Seus olhinhos brilhantes se aproximam de mim, com o mapa do Brasil nas mãos.

Veja, veja, é do século XVIII. Arranquei a página de um Atlas antigo.

Olho o mapa sem interesse apesar de que o que vejo é um Brasil estranho em forma de presunto, com as Capitanias delineadas à mão com tinta descolorida. Meus olhos ardem.

A velha limpa a folha de papel amarelado com o seu xale. Veja, veja como é bonito. É o seu país, não é? Como es grande. Dios mio. Tem florestas enormes, grandes rios, muitos pássaros coloridos. Que haces aqui muchacho?

E eu me pergunto. Que faço aqui, dentro deste urinário, ao lado desta velha rodeada de mortos. Por que larguei as florestas, os rios, os pássaros, e os troquei por ruínas? Por que me encantam pedras velhas, velhos documentos, buracos roídos nas paredes? Restos de tudo, colunas túmulos, esculturas partidas. Mortos. Mortos. E a velha? Esta não me deixará mais sair.

Ao longe ouço o som de uma música barroca tocada por flauta.

Se eu ficar bem quieto, a flauta me carregará daqui para fora. Não. Ela me dá sono. Quero dormir. Se eu pudesse fumar. Mas não trouxe os cigarros.

A velha continua me olhando, tem agora um ar surpreso. Espera algo de mim. Que eu me decida provavelmente. Não consigo dizer uma palavra. Não consigo me mover. Somente um som oco, estranho me sai do pulmão Deve ser minha asma.

Quem tem asma não se mete com papéis velhos, dizia minha mãe.

A minha asma. A que ficou como lembrança do lugar de onde vim. Eu estive lá. Eu os vi chegando, mortos vivos, arrastando os pés. Eu estive nos campos de extermínio. Hoje não possuo nada. Tudo desapareceu pelas fumaças das chaminés.

Sou historiador, um visitador de cemitérios. A história, um tempo falso e absurdo nos deixou imagens, algumas guardamos acreditando na imortalidade. Meus familiares foram deixando seus mortos nos diversos países em que se instalaram achando que sua morada seria a definitiva. Porém nunca o era.

Hoje vim até aqui trazido pelo apelo fugidio de mais uma certeza. A de que encontraria algo de importante. Como judeu errante que sou, caminho à procura do lugar definitivo.

Este buraco do lado esquerdo da Catedral com sua guardiã quase centenária, rodeada de tudo aquilo que colecionei durante a vida, papéis desfeitos se transformando em pó, o meu lugar definitivo.

Pago a pena de ser aquele que ouve os gritos desesperados de Deus pedindo minha ajuda. Ouço seus chamados.

Cansado sento-me na pilha de livros mais próxima. Olho para a velha. Parece-me reconhecer-lhe os traços. Sua expressão é antiga. Os olhos não brilham mais pois olham para muito longe.

Sua figura é uma pedra muito dura. Suas rugas são traçados infinitos, teias que se entrecruzam. As mãos agora estão calmas, pousando no regaço, largadas, desistiram de agarrar. Não diz mais nada.

Continuo olhando-a e a minha dor se espraia, cresce, e não é só dela a minha dor. Não só por ela quero chorar.

Nietzsche abraça a cabeça do cavalo.

Eu sou Nietzsche abraçando a cabeça do animal. Porém é minha a cabeça que agora repousa no colo da velha.

Sim. Minha dor é grande. Não sairei mais daqui.




sábado, 29 de agosto de 2009

La Double Vie de Veronique

Coisas vistas, coisas ditas
Com A dupla vida de Véronique Krzystof Kieslovski reinventa um velho gênero da literatura e do cinema fantástico, a narrativa sobre o Doppelgänger ou o duplo. Desde Adelbert von Chamisso, passando por escritores tão díspares como Edgar Allan Poe ("William Wilson") e Dostoiévski, o tema do duplo se desdobra na teoria psicanalítica moderna. Não por acaso, um dos discípulos de Freud, Otto Rank, escreve um ensaio seminal sobre o tema, Der Doppelgänger, a partir de um filme de mesmo título do cinema silencioso alemão (1913). Mas se, na maior parte dos casos, o Duplo é visto ou como figura fantasmática (e fantasmagórica), ou como projeção esquizofrênica da personalidade, em A dupla vida de veronique Kieslovski toca nos secredos da Criação divina. No filme, a polonesa Werônika começa a atingir o auge de sua carreica como cantora lírica quando é subitamente acometida por dores no peito, que a levarão a um infarto e à morte em plena sala de concertos. Em Paris, uma outra musicista, Véronique (ambas vividas pela bela e magistral Irene Jacob), começa a sentir dores no peito, e após exames decide abandonar a carreira de cantora. Véronique se aproxima então de um marionetista cuja arte revela a Véronique o pressentimento do transcendente. Véronique quer entender, mas tudo o que lhe é possível é pressentir que não está sozinha neste mundo, ou que não esteve sozinha durante parte de sua vida. Assim como Weronika, ela viveu, durante um brevíssimo tempo, um encontro inesperado com a sua Outra, e esse encontro acaba envolvendo as duas numa trama de morte e vida. Tal como ocorre em outros filmes de Kieslovski, o sublime se revela nas imagens mais banais, e a poesia do filme decorre de imagens de pequenos detalhes, como uma luz crepuscular filtrada por uma janela, ou a poeira iluminada que cai de um teto de madeira. São as "lágrimas das coisas", como mostra Slavoj Zizek, que nos levam às verdadeiras lágrimas diante de um filme de Kieslovski. Mas é claro que a imagem visual de A dupla vida de Véronique não teria o mesmo impacto sem a colaboração vital de Zbigniew Preisner, parceiro de Kieslovski em quase todos os seus filmes. Aqui, como em A liberdade é azul, a música não é um elemento a mais, mas o elemento condutor da narrativa, tal como na concepção operística de Wagner.
(Texto extraido do site http://www.apeledapelicula.com.br/ detalhe.php?dd=26)




sexta-feira, 28 de agosto de 2009

ANUNCIAÇÃO

Coisas vistas, coisas ditas
Rosa era um ovo. Cheio e frágil. Acordava cedo. Não lembrava de sonhos. Assim que se levantava, punha uma polca no aparelho de som. Era seu único disco. Não tinha muitos pensamentos, e falava sozinha. Não foi sempre assim. É claro que nada é sempre assim. Rosa fôra loira, alegre, gostara de um homem e de arte sacra mais que tudo. Nunca saiu de sua cidade e sua cidade nunca deixou de ser Girona, terra cansada de uma Espanha negra e profunda.
Morava numa casinha torta, uma porta embaixo e em cima um balcão precário repleto de pequenos vasos de plantas verdes. Uma cortina de renda suja protegia o vidro embaçado da janela que dava para a Ruta de los Camiños de los Judius. Usava um penhoar rosa sobre a camiseta que lhe vinha até os joelhos grandes nas pernas finas. Passava o dia assim. Regava os vasos. Comia pouco, não pensava em nada e falava, falava sem parar. Com ninguém menos que o Grão Rabino Nahmánides chamado pelo nome de Bonastruc de Porta. Não precisava pensar pois o rabino sabia as perguntas e dava as respostas.
Rivkale, tão branca, nada se mexe em você, nada pode te tocar, pois te quebras facilmente, dizia o Rabi. Não vais à sinagoga, não rezas os shabats, nem os dias sagrados. Não sais de casa. Não importa. De todos os judeus que daqui tiveram que fugir, você foi a escolhida para ficar. O que será de você quando eu tiver que ir?
Eu sei que Deus te escolheu. Me pergunto por que. Será pela tua inteireza e pelo que você carrega no teu ventre? Este ser inacabado. Eternamente grávida, Rosa, como consegues? Acho que é porque não pensas. É preciso não pensar para manter-se eternamente grávida assim.
Teu nome carrega espinhos. Aqueles que não podem te tocar. Não fostes feita para espinhos nem que sejam os de uma coroa. Tua coroa é luz, brilhante e azul. Só eu vejo. Ela só ilumina quem se aproxima tanto de ti que não pode mais te ver.
Você desaparece e só a luz permanece.Teu filho-embrião nunca verá a luz mas será luz. Nunca serás Maria. Pois como pode Rosa ser Maria? Nem queres não é? Para ser Maria é preciso poder sofrer sem quebrar, e você, eu sei, quebrará, isto eu sei.
Você fica horas olhando Madonas no velho livro. Há uma em especial, sorridente, e que fecha um olho em piscada matreira, só para você.
O sorriso da Madona te faz sorrir de volta. Duas comadres que se entendem. Eu te entendo.

O dia em que a tartaruga apareceu no jardim havia um perfume de lilases no ar. A trepadeira de glicínias estava tão cheia que seus cachos caiam até o solo misturando-se às buganvilias roxas que por ali subiam. O pequeno jardim era todo roxo e verde. No meio desta pequena caverna colorida só destacava a cadeira de palha pintada de branco. Era ali que Rosa estava sentada quando viu o bicho aparecer.
Ele veio vindo muito vagarosamente e parou em frente. Sua armadura brilhava ao sol e o olho, que só as tartarugas podem ter, o olho da eternidade, fixava-se lá onde os humanos não chegam.
Ao perfume de lilases somou-se um estranho, pungente odor de eucaliptos molhados. O corpo duro ali parado não saia do lugar. De nada adiantou cutucá-lo, oferecer-lhe água, falar com ele.
Rosa desistiu e aceitou sua presença inusitada sem mais lhe prestar atenção. O tempo passou desapercebido, inexistente.

Rosa, de olhos fechados, deixara de falar. O rabino há tempos tinha morrido. Agora só ouvia os sons longínquos dos responsórios do convento que ficava mais no alto de seu jardim, pelo qual ela caminhava por escadas de pedra para então sentar-se encostada na parede e ouvir melhor o canto das mulheres.
A tartaruga passou a segui-la. Entrando em casa com o bicho atrás, preparava o almoço pondo um pouco de sua comida numa tigela que depositava no chão. Assim, ambas comiam repartindo o silêncio.

Passaram-se meses. O silêncio nunca mais foi rompido nem a polca tocada. O som era dos pássaros, das folhas, da chuva e das monjas. O mais perfeito e redondo silêncio.
Numa noite, Rosa, de seu sono, lançou um grito. Terrivelmente ecoante, um grito longo sem pausa, único, suspenso no negro céu sem lua.
Aos poucos, do negro deserto a lua surgiu imensa iluminando todos os cantos do quarto. A tartaruga tinha desaparecido.
Rosa deitada, muito calma ficou assim sem se mover. Não havia mais tempo neste espaço de luz. Com medo de se virar ou mexer ficou assim, sentindo um peso úmido sobre seu ventre. Aos poucos foi aproximando as mãos e apalpou uma pequena cabeça molhada, logo em seguida foi apalpando-o pequeno ser que ali se mantinha imóvel. Apanhou-o com delicadeza para lhe ver o rosto. Era um menino muito quieto, de olhos abertos. Fitava fixamente a mãe e tinha um ligeiro sorriso. Havia luz em tudo.
Deitado ao seu lado emitia sons que não eram do vagido próprio dos bebês nem eram palavras nem gemidos, nem propriamente choro.
Na verdade o som não vinha do leito, mas de fora, do vento que batia forte nas janelas Le-Lah-Kah-He, sons que lhe produziam a sensação de estar sonhando um ofuscamento próprio daqueles que não enxergam bem ou que vêem bem demais.
Quando silenciou o vento, o bebê também calou. Sua pequena boca só abria para receber o leite do peito materno que sugava avidamente.
Esta criança que nascera de olhos abertos e que não os fechava nunca nem para dormir, era doce e macia nos braços da mãe que o olhava com espanto e admiração. A cabeça muito enrugada ao tato, assemelhando-se a uma noz, cheia de reentrâncias suaves recebia as carícias dos dedos maternos.
Era grande o amor trocado entre a ponta do dedo e a superfície do crânio desenhado por uma vontade desconhecida de ambos. Nasceu o menino de Rosa assim, cego, de olhos abertos, pois não possuía pálpebras para fechá-los. Surdo e mudo.
Aquele que tudo ouviria, tudo saberia, e sem falar, um dia haveria de chorar baixinho, a dor dos que conhecem os degraus que levam ao patamar do espírito sagrado, dedicando sua vida à Sabedoria, à Razão e ao Conhecimento.
O filho que Deus mais uma vez mandou à Terra e a quem Rosa chamou de Yihud.
“ A Filha de Kafka : Relatos/ Giselda Leirner
São Paulo;Massao Ohno editora, 1.999





quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Robinson

Coisas vistas, coisas ditas





Não tivesse Robinson abandonado o ponto mais alto
ou com mais exatidão, o mais visível
da Ilha,
por desconsolo
ou humildade
ou medo
ou ignorância
ou nostalgia
e logo teria sucumbido

Mas uma vez que, sem fazer caso dos navios
com suas fracas lunetas, se pôs a explorar a sua Ilha
e a se contentar com ela,
se manteve com vida
e sempre tornou a ser encontrado,
numa sequência de fatos encadeados de maneira
razoavelmente necessária

Postado por Vicente Franz Cecim no Cecim: Vozes de Andara

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Beckett

Coisas vistas, coisas ditas











Escrever conduziu-me ao silêncio.

Sempre tive a impressão de haver dentro de mim um ser assassinado.

Assassinado mesmo antes do meu nascimento. Era preciso que eu o reencontrasse. Procurar ressuscitá-lo.

Mas os valores morais não são acessíveis. E não podemos defini-los. Seria necessário definir um juízo de valor, o que é impossível. Por isso que nunca estive de acordo com esta noção de teatro do absurdo.

Escrevi Malloy no dia em que compreendi minha estupidez. Então me pus a escrever as coisas que sinto.

É possível que não existamsenão falsos caminhos. Porém, é preciso encontrar o falso caminho que te convém.

É preciso permanecer lá onde não há nem prenome, nem solução,nem reaçãoe tampouco tomadas de posição possíveis...É isto que faz o trabalho tão diabolicamente difícil.

Muitas vezes penso em Yeats. Escreveu seus melhores poemas depois dos sessenta anos.

Sempre desejei ter uma velhice tensa e ativa...O ser que não deixa de arder, embora o corpo fuja.

Até certo momento acreditei que podia confiar no conhecimento. Que deveria me equipar no plano intelectual. Mas isto tudo se desmoronou.


Engraving by Jan Peter Tripp