BRANCA
NA CATEDRAL
Branca era seu nome e toda pintada de
branco sentada na calçada em frente à Catedral de Barcelona, não se movia. As
pessoas que passavam às vezes paravam para olhar, algumas aproximavam-se para
jogar moedas numa caixa de papelão que ficava a seu lado.
Os olhos negros que eram o único a
ressaltar em toda esta brancura olhavam fixamente o vazio sem pestanejar.
Ao lado um rapaz movia-se em sua volta
retocando-a com pinceladas que iam e vinham sobre seu corpo rígido. Fazia frio.
Branca levantara-se cedo esta manhã. O
céu azul e frio visto pela janela estreita cortou-lhe a vista pela inesperada
luz. Enquanto se lavava cuidadosamente, o sabonete cremoso, o hidratante de
pele, a colônia esfregada, olhava o espelho em frente e se observava.
Magra, muito magra, os ossos lhe saindo
em pontas pelos ombros. Os olhos vermelhos de tanto esfregar. Quando lhe
entrava a tinta pelos olhos, doíam, ardiam, e de nada adiantavam os colírios,
as lágrimas artificiais, as várias águas, as boricadas.
Porcaria de tinta. Porcaria de homem que
me lambuza todos os fins-de-semana e feriados. Quando não me pinta toda do
leite branco de sua tinta, me põe o pênis dentro e me molha toda de outro leite
tão nojento quanto o primeiro. Isto quando não o põe em minha boca. Por isto
tomo café puro. Odeio o leite. O puro leite saído do peito de minha mãe se
transformou num líquido branco, viscoso, amargo que sou obrigada a receber. O
peito terno, doce de minha mãe transformou-se
no pedaço de carne vermelha que verte outro líquido. Nada mais é terno
nem doce. Transformado em veneno.
Ela o via deitado, imerso na calma de um
sono bom e sem culpa. Um gato, lânguido, feliz com a luz da janela o estriando
em sua doçura.
E eu, seu porco, e eu? Quem sou neste
teu sonho?
E
se algo sou aí, serei uma mulher? Sabe você o que é mulher. Nem eu sei. Só sei
que sou um eu humilhado. Falta ser levada por uma coleira. Nem isto preciso
pois vou atrás de ti carregando as latas de tinta branca sem protestar. É
assim. Assim tem que ser. É assim que você quer. E eu o que quero? Não sei não
me ensinaram a querer. E se acho que sei o que quero logo duvido, e me encolho
no canto que meu corpo encerra. Sem perguntas. Sem respostas.
Hoje é domingo. Acordo cedo como sempre,
me lavo, me esfrego, tiro com uma bucha os resquícios de tinta branca que ainda
se colam em alguns pedaços de meu corpo.
Como sou feia. Gostaria de por um
vermelho nas unhas, ou quem sabe na boca. Um vermelho mancharia a pureza do
branco que ele usa para me cobrir, um vermelho é a flor do meu sexo que deixou
de sê-lo, flor ou sexo.
E se eu fizer um pequeno corte. O sangue
verterá, vermelho, que bom um vermelho quente molhado correrá abaixo, minhas
coxas se mancharão.
Não sentirei mais frio. Meus pés
molhados, eu os vejo bem agora. Não mais brancos nem gelados. Não mais expostos
na esquina da Catedral.
São pés de verdade, leves, que andam
sós, não vão atrás de ninguém.
Sobem as escadas da Catedral. Lá dentro,
escuro, luzes vermelhas, milhares delas, e meus pés caminham sem dor.
Me ajoelho diante da virgem negra. Negro
e ouro. Tão calma com o bebê no colo.
Ninguém chora. Eu também não.
Deito-me, o lençol em minha volta
encharca. O borrão abre-se, esparrama-se até onde ele dorme.
Ele não sente nada.