domingo, 27 de setembro de 2009

Nicolas de Cusa

Coisas vistas, coisas ditas
“ quem merece ver tua face vê tudo a descoberto, e nada para ele permanece escondido.
Senhor, quem te possui possui tudo; quem te vê possui tudo. Pois ninguém te vê se não te possuir.
Ora, pessoa nenhuma pode aceder a ti pois és inacessível. Pessoa nenhuma, pois, te tomará, se tu não te deres a ela.
Como posso te possuir, Senhor, eu que não sou digno de comparecer sob teu olhar ?
Mas, sobretudo, como te darás a mim, se não me destes eu mesmo a mim mesmo ?E enquanto eu me repouso no silêncio da contemplação, tu, Senhor, no seio de minhas vísceras, tu me respondes com estas palavras: “ Seja a ti mesmo e eu serei em ti “
No entanto, como serei eu mim mesmo se tu, Senhor, tu não mo ensinaste?
Ora, veja o que me ensinas : Os sentidos devem obedecer à razão e a razão deve comandar.
Quando meus sentidos servem minha razão eu sou a mim mesmo. Mas a razão não recebe sua direção que de ti, Senhor, que é o Verbo e a razão das razões. Daí eu vejo que se escuto teu Verbo que em mim não cessa de falar e de trazer continuamente sua luz em minha razão, eu serei livre e não escravo do pecado
E tu estarás comigo, e tu me farás ver tua face, e então serei salvo”
*( Nicolas de Cusa, “ De visione Dei sive de icona”. 1.453)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Feliz Aniversário


Coisas vistas, coisas ditas
Para minha filha Sheila

Amor

Coisas vistas, coisas ditas
Como não posso escrever uma tese sobre o amor, não há tempo, escrevo estes contos banais.
Quem sabe não dirão o mesmo ?


Não há dor maior do que a perda de quem se ama. Pior a perda de quem se ama e continua perto
Quando a perda é a morte, o desaparecimento físico ajuda. Mas ... quando a perda é viva? E continúa vivendo. O que dizer desta dor contínua.
Como agüentar uma dor presente, cujo esquecimento não se dá como descanso.

Eu achava que tinha um buraco no peito. Mas estou errada. O que tenho é um transbordamento.


Transformar o vivido em escrito, ou será o contrário, o escrito em vivido.

Ocorreu-me que o amor erótico da juventude possa ser menos importante, apesar de sua intensidade, do que o amor da criação artística. Um amor que arde e é frio.
Sua frieza pode ser sua possibilidade maior
Fogo Frio ? Sim. Que arde para a eternidade enquanto o outro se extingue.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Quem tem medo de poesia ?

Coisas vistas, coisas ditas
Quem trabalha para dar à poesia um lugar de destaque no cenário cultural atual – isto é, fazer com que ela seja escrita, publicada e lida por pessoas de todas as condições sociais e econômicas – enfrenta grandes resistências, tanto do mercado editorial, quanto dos próprios leitores,

ReproduçãoFernando Pessoa, um dos mais importantes poetas de todos os tempos

­Mas, se é tão difícil publicar e “vender” poesia, porque a chama não se apaga de vez? Por que as pessoas continuam descobrindo e redescobrindo novos e velhos poetas, todos os dias; escrevendo e lendo poesia, publicadas ou não; estudando a escrita poética em universidades, no mundo todo? Essas questões, mais do que provocar respostas, nos levam a reconhecer na poesia um elemento primordial, algo que sempre fez parte da nossa constituição como seres humanos, que é inerente às nossas emoções e à forma como buscamos transformar tudo o que vemos em linguagem, em imagens poéticas. É reconfortante pensar que, enquanto existirmos como humanos, o fogo da poesia continuará ardendo.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

No jardim dos Justos

Coisas vistas, coisas ditas

Aracy de Carvalho Guimarães Rosa (Rio Negro, Paraná, c. 1908) é uma senhora brasileira, segunda esposa do escritor João Guimarães Rosa. Aracy também é conhecida por ter seu nome escrito no Jardim dos Justos entre as Nações, no Museu do Holocausto (Yad Vashem), em Israel, por ter ajudado muitos judeus a entrarem ilegalmente no Brasil durante o governo de Getúlio Vargas.



Paranaense, foi morar com uma tia na Alemanha após separar-se do primeiro marido. Por falar quatro línguas (português, inglês, francês e alemão), conseguiu uma nomeação no consulado brasileiro em Hamburgo, onde era encarregada da secção de vistos.
No ano de 1938, entra em vigor, no Brasil, a circular secreta 1.127, que restringia a entrada de judeus no país. Aracy ignorou a circular e continuou preparando vistos para judeus. Como despachava com o cônsul geral, ela colocava os vistos entre a papelada para as assinaturas. Nessa época, João Guimarães Rosa era cônsul adjunto (ainda não eram casados).
Sua biografia inclui, também, ajuda a compositores e intelectuais durante o regime militar brasileiro.





domingo, 13 de setembro de 2009

Carnaval no Jardim da Luz




Coisas vistas, coisas ditas
Giselda, Nelson e primos.


sábado, 12 de setembro de 2009

Shaná Tová


Coisas vistas, coisas ditas
feliz ano novo



quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Abismo de Trevas

Coisas vistas, coisas ditas
Viemos de um abismo de trevas; findamos num abismo

de trevas: ao intervalo de luz entre um e outro damos o nome

de vida.

Tão logo nascemos, principia o retorno; partida e volta

são simultâneos; morremos a cada instante. Por isso muitos

proclamaram: O escopo da vida é a morte.

Todavia, tão logo nascemos, principia o esforço de criar, de

tramar, de fazer da matéria vida: a cada instante nascemos. Por

isso muitos proclamaram: O escopo da vida efêmera é a imortalidade.

Nos transitórios corpos vivos, lutam duas correntes: 1°a ascendente,

rumo à síntese, à vida, à imortalidade; 2° a descendente,

rumo à dissolução, à matéria, à morte.

E as duas correntes se originam no imo da substância

primeva. De começo, a vida surpreende; parece uma reação ilegítima,

desnaturada e efêmera às trevas das fontes eternas;

mas, quando nos aprofundamos, percebemos que a Vida é o

próprio curso, sem princípio nem fim, do Universo. Se assim não

fosse, de onde viria a força sobre-humana que nos lança do

incriado ao criado e nos impele - plantas, animais, homens-à

luta? As duas correntes antagônicas são pois sagradas.

Cumpre-nos, então, aceder a uma visão que articule e

harmonize estes dois prodigiosos impulsos sem princípio nem

fim, e por ela regular o nosso pensamento e a nossa ação.



Nikos Kazantzákis

Ascese



segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Bispo do Rosário

Coisas vistas, coisas ditas
Arthur Bispo do Rosário
Há uma década, precisamente, morria no rio de Janeiro, no hospital psiquiátrico Juliano Moreira, o negro Artur Bispo do Rosário. Sem receio nem comedimento, é por mim considerado o maior e mais genuíno artista brasileiro. Nenhum outro foi tão profundo na sua pesquisa pessoal. Nenhum outro foi tão universal, tão ilimitado e sagrado. Em tempo: Bispo não esculpiu santos, não decorou igrejas, nem nunca trabalhou com nenhuma espécie de tinta, telas ou cavaletes. A matéria prima de seu trabalho advinha do lixo recolhido no hospital, sucatas, restolhos e trapos de pano, que eram desfiados e posteriormente utilizado em seus bordados.
Artur Bispo do Rosário era, dentre outras coisas, um bordador de obras primas. Passou mais da metade de sua vida trancafiado no Juliano Moreira, mumificando seus objetos pessoais: escovas de dente, talheres, tesouras, etc. As loucuras de Artur Bispo do Rosário não cabem numa simples dissertação, é preciso se deparar com a sua vasta obra para se ter a dimensão de quem foi Artur Bispo do Rosário. Era um artista obcecado por jogo de xadrez, misses e geografia; um artista que, com sua sede de registros, extrapolou as dimensões da pintura e criou fantásticas vitrines com copos de alumínio, pentes de plásticos e objetos variados.
Criado por uma família rica, em Botafogo foi, quando jovem, marinheiro e lutador de boxe. Certo dia recebeu uma mensagem de Deus, de Deus, ele dizia: era o início de seu desequilíbrio mental. Internado, ele logo se intitulou xerife e passou a bater nos companheiros. Ficou recluso numa solitária, onde passou grande parte de sua vida. Segundo Bispo, Deus lhe havia pedido que "Reconstruísse o universo" e "Registrasse a sua passagem aqui na terra". Durante meio século, não fez outra coisa. Para ele, a sua obra era um desejo de Deus, mas para o crítico Frederico de Morais, que o apresentou ao mundo, tudo não passava da mais genuína arte.
Em Belo Horizonte foi criado um Centro de Convivência que leva o seu nome. De certa maneira, ao que parece, é um extensão, no que concerne ao tratamento, do Hospital Pedro II, onde existe o bem sucedido Museu do Inconsciente. Em ambos os casos, os pacientes desenvolvem práticas artísticas e os resultados são surpreendentes. Prova disto, é a exposição que se realiza na Feira de Artesanato do Minascentro, em Belo Horizonte.
Hoje o nome de Artur Bispo do Rosário já correu os quatro cantos do planeta. Os europeus se extasiaram e, desde então, o reverenciam. Sua exposição visitou as principais capitais do mundo. Em um de seus mantos, Artur Bispo do Rosário bordou o nome das mulheres que seriam salvas, por ele, no Juízo Final. Este manto deveria acompanhar-lhe na subida aos céus, cujo desejo não foi atendido. Todos os principais conceitos e seguimentos de arte moderna estão contido na sua obra. É preciso observar que Bispo, sendo interno, estava alienado do mundo e por isso a sua originalidade é incontestável. Quando, em vida, quiseram expor os seus trabalhos, ele foi enfático: "Não faço isto para os homens, mas para Deus".

Abelardo de Carvalho




domingo, 6 de setembro de 2009

Artur Bispo do Rosario

Coisas vistas, coisas ditas



Bispo do Rosário

Coisas vistas, coisas ditas
Prefácio do livro sobre a obra de Arthur Bispo do Rosário



"Minha mãe era tapeceira e restauradora e, por isso, eu cresci em volta da magia da agulha e da linha. Dela eu herdei esta idéia de reparação como uma parte de minha arte. Minha costura é uma ação simbólica contra o medo de ser separada e abandonada. Nós percebemos no trabalho de Bispo do Rosário que ele também tinha medo de perder o contato. Como Penélope e a aranha, ele passou a vida inteira fazendo e desfazendo. Ele estava buscando uma ordem no caos, uma estrutura e ritmo do tempo e do pensamento. Pode-se dizer que buscar uma garantia de sanidade é o princípio da organização atrás de todo o seu trabalho.
Eu adoro o azul de Bispo do Rosário porque o azul é uma das minhas cores. Fiquei fascinada ao saber que a linha azul que ele usava vinha do uniforme de seu hospital psiquiátrico. Ele tinha a capacidade de incorporar um objeto da sua vida de confinamento e transformá-lo num objeto simbólico de sua auto-expressão, mistério, beleza e liberdade. Louise Bougeois






sábado, 5 de setembro de 2009

Minha mãe Felicia

Coisas vistas, coisas ditas
Os homens abençoados são aqueles que penetraram grutas

profundas a procura do desconhecido - a sabedoria, a ciência,

a arte. Ao revelar o que estava escondido, ofereceram um

um banquete a aqueles cuja alma precisava deste alimento para

aliviar as dores da vida



quinta-feira, 3 de setembro de 2009

E não é ?

Coisas vistas, coisas ditas
Este deveria ser um espaço para leitores compulsivos, diletantes, apaixonados, atrevidos, viajantes...

Parafraseando Jorge Luis Borges, sempre imaginamos que o paraíso fosse uma espécie de livraria. E não é?!



quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Presente de Nilson

Coisas vistas, coisas ditas
Amigos,

Segue um video-poema de Abdelkebir Khatibi: Amour Bilíngüe. É belíssimo, vejam.
É só clicar no endereço abaixo.











terça-feira, 1 de setembro de 2009

Lembranças de Anatol

Coisas vistas, coisas ditas


Giselda Leirner

Quando me convidaram para dizer algumas palavras
sobre Anatol Rosenfeld, pensei em captar através da
memória o que foi Anatol para mim.
A memória constrói ficções, armadilhas e a verdade
já não é mais aquilo que foi. O que resta é um sentimento
no lugar de um conhecimento.
Dizer dos seus escritos críticos agudos e às vezes
irônicos que nos encantavam pela pureza do estilo e pela
inteligência? Dizer que era um intelectual cuja contribuição
filosófica e principalmente ética foi da maior importância
para a formação de nossas idéias?
Tudo isto já foi dito e quem o conheceu ou conviveu
com suas idéias já o sabe. O que eu queria era transmitir
Anatol pessoa inteira. E isso é muito difícil. A memória,
o tempo deixam-nos sombras, um gesto, uma voz que
era... Uma voz suave e segura com um ligeiro e arranhado
sotaque alemão.
O português impecável. Nunca o vi rir. Sorria, quando
muito. Severo, com um olhar meio brincalhão de
quem sabe como vai acabar a história.

Lembro-me de quando lhe entreguei alguns poemas
de adolescente e ele, com todo o respeito e seriedade, fez
anotações críticas com sua letra miúda, não deixando
transparecer, no tratamento que deu ao trabalho, nada do
pouco valor literário que este realmente continha. Lembro-
me de nossas longas discussões sobre cinema e,
principalmente, literatura. Falávamos, falávamos e sempre
acabávamos em Thomas Mann. Estas conversas vinham
como uma espécie de gratificação que nos dávamos
depois das aulas onde estudávamos, parágrafo por parágrafo,
pesados textos filosóficos. Uma outra gratificação
era o chá com bolo depois da aula, servido na copa da
casa do Jacó Guinsburg e da sua mulher Gita.
E todos nós, Gita e Jacó, Regina e Boris Schnaiderman,
Roberto Schwarz, Zulmira Tavares, Leo e Rita
Seincman e tantos outros ficávamos até bem tarde discutindo,
e o que discutíamos era tão vivo e rico como o que
tínhamos estudado.
E assim era para Anatol a vida, o pensamento, as
idéias: uma coisa única, e desta coisa única todos nós
participamos e nos enriquecemos.
Ética e Estética, Arte e Vida, Pensamento e Existência,
tudo. absolutamente integrado em uma vida de amor à
Arte e de fé no homem. A Vida de Anatol.