segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Coisas vistas, coisas ditas
A VELHA DA RUA AMARGÓS


Como um rato. Pequena, cinzenta, aconchegada numa banqueta ao fundo de sua loja. Se assim pode se chamar uma porta na parede cujo interior escuro, coberto de livros, manuscritos, mapas, exala ao mesmo tempo um cheiro de poeira e umidade. Um hálito podre vem da boca da velha. Tudo se mistura à sombra suja e amarelada. Uma lâmpada pendurada de modo precário ilumina vagamente a única mesa que ocupa quase todo o espaço. No chão, pilhas de papéis. No fundo, um buraco cavado na parede onde se presume encontrar o WC-cozinha.

Entro com um certo desgosto à procura de mapas antigos. A ratazana desdentada ainda tem um olho vivo quando se trata de uma venda.

Vens do Brasil? Tenho alguns mapas antigos. E começa a vasculhar. Vontade de fugir. Mas a curiosidade me mantém parado. Quero ir-me embora. A velha agarra meu braço. Ordena. Fique. Veja os mapas.

Não quero mais ver nada. Preciso de ar. Porém a velha me mantém preso com suas garras incrivelmente pintadas de vermelho. Também vermelho é o xale que lhe enrola o pescoço.

Tenho a estranha sensação de que não conseguirei sair.

Faço força para respirar ao mesmo tempo em que não quero respirar o cheiro fétido. Seus olhinhos brilhantes se aproximam de mim, com o mapa do Brasil nas mãos.

Veja, veja, é do século XVIII. Arranquei a página de um Atlas antigo.

Olho o mapa sem interesse apesar de que o que vejo é um Brasil estranho em forma de presunto, com as Capitanias delineadas à mão com tinta descolorida. Meus olhos ardem.

A velha limpa a folha de papel amarelado com o seu xale. Veja, veja como é bonito. É o seu país, não é? Como es grande. Dios mio. Tem florestas enormes, grandes rios, muitos pássaros coloridos. Que haces aqui muchacho?

E eu me pergunto. Que faço aqui, dentro deste urinário, ao lado desta velha rodeada de mortos. Por que larguei as florestas, os rios, os pássaros, e os troquei por ruínas? Por que me encantam pedras velhas, velhos documentos, buracos roídos nas paredes? Restos de tudo, colunas túmulos, esculturas partidas. Mortos. Mortos. E a velha? Esta não me deixará mais sair.

Ao longe ouço o som de uma música barroca tocada por flauta.

Se eu ficar bem quieto, a flauta me carregará daqui para fora. Não. Ela me dá sono. Quero dormir. Se eu pudesse fumar. Mas não trouxe os cigarros.

A velha continua me olhando, tem agora um ar surpreso. Espera algo de mim. Que eu me decida provavelmente. Não consigo dizer uma palavra. Não consigo me mover. Somente um som oco, estranho me sai do pulmão Deve ser minha asma.

Quem tem asma não se mete com papéis velhos, dizia minha mãe.

A minha asma. A que ficou como lembrança do lugar de onde vim. Eu estive lá. Eu os vi chegando, mortos vivos, arrastando os pés. Eu estive nos campos de extermínio. Hoje não possuo nada. Tudo desapareceu pelas fumaças das chaminés.

Sou historiador, um visitador de cemitérios. A história, um tempo falso e absurdo nos deixou imagens, algumas guardamos acreditando na imortalidade. Meus familiares foram deixando seus mortos nos diversos países em que se instalaram achando que sua morada seria a definitiva. Porém nunca o era.

Hoje vim até aqui trazido pelo apelo fugidio de mais uma certeza. A de que encontraria algo de importante. Como judeu errante que sou, caminho à procura do lugar definitivo.

Este buraco do lado esquerdo da Catedral com sua guardiã quase centenária, rodeada de tudo aquilo que colecionei durante a vida, papéis desfeitos se transformando em pó, o meu lugar definitivo.

Pago a pena de ser aquele que ouve os gritos desesperados de Deus pedindo minha ajuda. Ouço seus chamados.

Cansado sento-me na pilha de livros mais próxima. Olho para a velha. Parece-me reconhecer-lhe os traços. Sua expressão é antiga. Os olhos não brilham mais pois olham para muito longe.

Sua figura é uma pedra muito dura. Suas rugas são traçados infinitos, teias que se entrecruzam. As mãos agora estão calmas, pousando no regaço, largadas, desistiram de agarrar. Não diz mais nada.

Continuo olhando-a e a minha dor se espraia, cresce, e não é só dela a minha dor. Não só por ela quero chorar.

Nietzsche abraça a cabeça do cavalo.

Eu sou Nietzsche abraçando a cabeça do animal. Porém é minha a cabeça que agora repousa no colo da velha.

Sim. Minha dor é grande. Não sairei mais daqui.




sábado, 29 de agosto de 2009

La Double Vie de Veronique

Coisas vistas, coisas ditas
Com A dupla vida de Véronique Krzystof Kieslovski reinventa um velho gênero da literatura e do cinema fantástico, a narrativa sobre o Doppelgänger ou o duplo. Desde Adelbert von Chamisso, passando por escritores tão díspares como Edgar Allan Poe ("William Wilson") e Dostoiévski, o tema do duplo se desdobra na teoria psicanalítica moderna. Não por acaso, um dos discípulos de Freud, Otto Rank, escreve um ensaio seminal sobre o tema, Der Doppelgänger, a partir de um filme de mesmo título do cinema silencioso alemão (1913). Mas se, na maior parte dos casos, o Duplo é visto ou como figura fantasmática (e fantasmagórica), ou como projeção esquizofrênica da personalidade, em A dupla vida de veronique Kieslovski toca nos secredos da Criação divina. No filme, a polonesa Werônika começa a atingir o auge de sua carreica como cantora lírica quando é subitamente acometida por dores no peito, que a levarão a um infarto e à morte em plena sala de concertos. Em Paris, uma outra musicista, Véronique (ambas vividas pela bela e magistral Irene Jacob), começa a sentir dores no peito, e após exames decide abandonar a carreira de cantora. Véronique se aproxima então de um marionetista cuja arte revela a Véronique o pressentimento do transcendente. Véronique quer entender, mas tudo o que lhe é possível é pressentir que não está sozinha neste mundo, ou que não esteve sozinha durante parte de sua vida. Assim como Weronika, ela viveu, durante um brevíssimo tempo, um encontro inesperado com a sua Outra, e esse encontro acaba envolvendo as duas numa trama de morte e vida. Tal como ocorre em outros filmes de Kieslovski, o sublime se revela nas imagens mais banais, e a poesia do filme decorre de imagens de pequenos detalhes, como uma luz crepuscular filtrada por uma janela, ou a poeira iluminada que cai de um teto de madeira. São as "lágrimas das coisas", como mostra Slavoj Zizek, que nos levam às verdadeiras lágrimas diante de um filme de Kieslovski. Mas é claro que a imagem visual de A dupla vida de Véronique não teria o mesmo impacto sem a colaboração vital de Zbigniew Preisner, parceiro de Kieslovski em quase todos os seus filmes. Aqui, como em A liberdade é azul, a música não é um elemento a mais, mas o elemento condutor da narrativa, tal como na concepção operística de Wagner.
(Texto extraido do site http://www.apeledapelicula.com.br/ detalhe.php?dd=26)




sexta-feira, 28 de agosto de 2009

ANUNCIAÇÃO

Coisas vistas, coisas ditas
Rosa era um ovo. Cheio e frágil. Acordava cedo. Não lembrava de sonhos. Assim que se levantava, punha uma polca no aparelho de som. Era seu único disco. Não tinha muitos pensamentos, e falava sozinha. Não foi sempre assim. É claro que nada é sempre assim. Rosa fôra loira, alegre, gostara de um homem e de arte sacra mais que tudo. Nunca saiu de sua cidade e sua cidade nunca deixou de ser Girona, terra cansada de uma Espanha negra e profunda.
Morava numa casinha torta, uma porta embaixo e em cima um balcão precário repleto de pequenos vasos de plantas verdes. Uma cortina de renda suja protegia o vidro embaçado da janela que dava para a Ruta de los Camiños de los Judius. Usava um penhoar rosa sobre a camiseta que lhe vinha até os joelhos grandes nas pernas finas. Passava o dia assim. Regava os vasos. Comia pouco, não pensava em nada e falava, falava sem parar. Com ninguém menos que o Grão Rabino Nahmánides chamado pelo nome de Bonastruc de Porta. Não precisava pensar pois o rabino sabia as perguntas e dava as respostas.
Rivkale, tão branca, nada se mexe em você, nada pode te tocar, pois te quebras facilmente, dizia o Rabi. Não vais à sinagoga, não rezas os shabats, nem os dias sagrados. Não sais de casa. Não importa. De todos os judeus que daqui tiveram que fugir, você foi a escolhida para ficar. O que será de você quando eu tiver que ir?
Eu sei que Deus te escolheu. Me pergunto por que. Será pela tua inteireza e pelo que você carrega no teu ventre? Este ser inacabado. Eternamente grávida, Rosa, como consegues? Acho que é porque não pensas. É preciso não pensar para manter-se eternamente grávida assim.
Teu nome carrega espinhos. Aqueles que não podem te tocar. Não fostes feita para espinhos nem que sejam os de uma coroa. Tua coroa é luz, brilhante e azul. Só eu vejo. Ela só ilumina quem se aproxima tanto de ti que não pode mais te ver.
Você desaparece e só a luz permanece.Teu filho-embrião nunca verá a luz mas será luz. Nunca serás Maria. Pois como pode Rosa ser Maria? Nem queres não é? Para ser Maria é preciso poder sofrer sem quebrar, e você, eu sei, quebrará, isto eu sei.
Você fica horas olhando Madonas no velho livro. Há uma em especial, sorridente, e que fecha um olho em piscada matreira, só para você.
O sorriso da Madona te faz sorrir de volta. Duas comadres que se entendem. Eu te entendo.

O dia em que a tartaruga apareceu no jardim havia um perfume de lilases no ar. A trepadeira de glicínias estava tão cheia que seus cachos caiam até o solo misturando-se às buganvilias roxas que por ali subiam. O pequeno jardim era todo roxo e verde. No meio desta pequena caverna colorida só destacava a cadeira de palha pintada de branco. Era ali que Rosa estava sentada quando viu o bicho aparecer.
Ele veio vindo muito vagarosamente e parou em frente. Sua armadura brilhava ao sol e o olho, que só as tartarugas podem ter, o olho da eternidade, fixava-se lá onde os humanos não chegam.
Ao perfume de lilases somou-se um estranho, pungente odor de eucaliptos molhados. O corpo duro ali parado não saia do lugar. De nada adiantou cutucá-lo, oferecer-lhe água, falar com ele.
Rosa desistiu e aceitou sua presença inusitada sem mais lhe prestar atenção. O tempo passou desapercebido, inexistente.

Rosa, de olhos fechados, deixara de falar. O rabino há tempos tinha morrido. Agora só ouvia os sons longínquos dos responsórios do convento que ficava mais no alto de seu jardim, pelo qual ela caminhava por escadas de pedra para então sentar-se encostada na parede e ouvir melhor o canto das mulheres.
A tartaruga passou a segui-la. Entrando em casa com o bicho atrás, preparava o almoço pondo um pouco de sua comida numa tigela que depositava no chão. Assim, ambas comiam repartindo o silêncio.

Passaram-se meses. O silêncio nunca mais foi rompido nem a polca tocada. O som era dos pássaros, das folhas, da chuva e das monjas. O mais perfeito e redondo silêncio.
Numa noite, Rosa, de seu sono, lançou um grito. Terrivelmente ecoante, um grito longo sem pausa, único, suspenso no negro céu sem lua.
Aos poucos, do negro deserto a lua surgiu imensa iluminando todos os cantos do quarto. A tartaruga tinha desaparecido.
Rosa deitada, muito calma ficou assim sem se mover. Não havia mais tempo neste espaço de luz. Com medo de se virar ou mexer ficou assim, sentindo um peso úmido sobre seu ventre. Aos poucos foi aproximando as mãos e apalpou uma pequena cabeça molhada, logo em seguida foi apalpando-o pequeno ser que ali se mantinha imóvel. Apanhou-o com delicadeza para lhe ver o rosto. Era um menino muito quieto, de olhos abertos. Fitava fixamente a mãe e tinha um ligeiro sorriso. Havia luz em tudo.
Deitado ao seu lado emitia sons que não eram do vagido próprio dos bebês nem eram palavras nem gemidos, nem propriamente choro.
Na verdade o som não vinha do leito, mas de fora, do vento que batia forte nas janelas Le-Lah-Kah-He, sons que lhe produziam a sensação de estar sonhando um ofuscamento próprio daqueles que não enxergam bem ou que vêem bem demais.
Quando silenciou o vento, o bebê também calou. Sua pequena boca só abria para receber o leite do peito materno que sugava avidamente.
Esta criança que nascera de olhos abertos e que não os fechava nunca nem para dormir, era doce e macia nos braços da mãe que o olhava com espanto e admiração. A cabeça muito enrugada ao tato, assemelhando-se a uma noz, cheia de reentrâncias suaves recebia as carícias dos dedos maternos.
Era grande o amor trocado entre a ponta do dedo e a superfície do crânio desenhado por uma vontade desconhecida de ambos. Nasceu o menino de Rosa assim, cego, de olhos abertos, pois não possuía pálpebras para fechá-los. Surdo e mudo.
Aquele que tudo ouviria, tudo saberia, e sem falar, um dia haveria de chorar baixinho, a dor dos que conhecem os degraus que levam ao patamar do espírito sagrado, dedicando sua vida à Sabedoria, à Razão e ao Conhecimento.
O filho que Deus mais uma vez mandou à Terra e a quem Rosa chamou de Yihud.
“ A Filha de Kafka : Relatos/ Giselda Leirner
São Paulo;Massao Ohno editora, 1.999





quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Robinson

Coisas vistas, coisas ditas





Não tivesse Robinson abandonado o ponto mais alto
ou com mais exatidão, o mais visível
da Ilha,
por desconsolo
ou humildade
ou medo
ou ignorância
ou nostalgia
e logo teria sucumbido

Mas uma vez que, sem fazer caso dos navios
com suas fracas lunetas, se pôs a explorar a sua Ilha
e a se contentar com ela,
se manteve com vida
e sempre tornou a ser encontrado,
numa sequência de fatos encadeados de maneira
razoavelmente necessária

Postado por Vicente Franz Cecim no Cecim: Vozes de Andara

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Beckett

Coisas vistas, coisas ditas











Escrever conduziu-me ao silêncio.

Sempre tive a impressão de haver dentro de mim um ser assassinado.

Assassinado mesmo antes do meu nascimento. Era preciso que eu o reencontrasse. Procurar ressuscitá-lo.

Mas os valores morais não são acessíveis. E não podemos defini-los. Seria necessário definir um juízo de valor, o que é impossível. Por isso que nunca estive de acordo com esta noção de teatro do absurdo.

Escrevi Malloy no dia em que compreendi minha estupidez. Então me pus a escrever as coisas que sinto.

É possível que não existamsenão falsos caminhos. Porém, é preciso encontrar o falso caminho que te convém.

É preciso permanecer lá onde não há nem prenome, nem solução,nem reaçãoe tampouco tomadas de posição possíveis...É isto que faz o trabalho tão diabolicamente difícil.

Muitas vezes penso em Yeats. Escreveu seus melhores poemas depois dos sessenta anos.

Sempre desejei ter uma velhice tensa e ativa...O ser que não deixa de arder, embora o corpo fuja.

Até certo momento acreditei que podia confiar no conhecimento. Que deveria me equipar no plano intelectual. Mas isto tudo se desmoronou.


Engraving by Jan Peter Tripp

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O Diálogo

Coisas vistas, coisas ditas

O DIÁLOGO
Para Br.SC



Sinto-me cansada. Pesada. Doem-me as pernas, respiro com dificuldade.
Sento-me na praça que nada de praça tem.
Não uma arvore, não um pedaço de verde.
Uma praça, dois bancos. Sento-me em um.
No outro,um jovem muito jovem, rosto pálido. Toca violino. O som é belíssimo.
Para de tocar e olha para mim.
Diz: Chamo-me Bruno. Eu digo: Chamo-me Guitel.
Esta é a historia de meu encontro. Tenho setenta anos. Bruno só trinta.

Volto para meu quarto. Vivemos em um Gueto.
Me ocorre a idéia de que Guitel e Gueto tem algo em comum.
Tenho fome, como um naco de pão amanhecido.
Acendo uma vela Gosto da luz da vela, não tenho outra. Não é minha escolha.
Deito-me, gosto de minha cama de madeira, ficaria sempre ali. Não é minha escolha.
Não sei porque, pulo para fora de madrugada. Esquento um liquido que lembra o café.
É bom.Não o mesmo que tomava com pai e mãe ao meu lado.

Penso em Bruno. Ele aparece e conversamos. Temos tanta coisa para dizer.
Gosto dele, da vela e da cama. Pergunto se ainda poderia aprender a tocar violino.
Ele diz que sim. Acho graça. Aprender algo tão novo, com o que me resta de tempo.
Quero saber dele. De mim tenho pouco a contar.
Parece-me pouco o espaço de uma vida inteira. Não entendo. É pouco, é muito?

Ele fala, e sua fala transforma-se em fala minha. Nossa sorte foi à mesma.
Viveu, morreu. Vivi e morri. Junto a ele.
O diálogo de dois em um. Continuamos falando. Sim, isto é possível.
Não estamos mais aqui.

Giselda Leirner 2.007



segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Quantos são ?

Coisas vistas, coisas ditas
Quando duas pessoas se encontram há, na verdade, seis pessoas presentes: cada pessoa como se vê a si mesma, cada pessoa como a outra a vê e cada pessoa como realmente é.

William James





domingo, 23 de agosto de 2009

O Universo é uma água clara

Coisas vistas, coisas ditas
Uma noite ao sair da sinagoga, dirigindo-se a Reb Seriel, Reb Noual disse:

- O Universo é uma água clara dentro de uma tigela de porcelana. Você pode segurar nas mãos a tigela, mas jamais a água nela contida.

- Eu posso molhar meus dedos ou bebê-la, respondeu Reb Seriel.

- Para que ? disse então Reb Noual. Teus dedos estarão logo secos, e tua sede será estancada só por uns instantes.

E concluiu :

- A sede é nosso destino.


O Livro das Questões, Edmond Jabés.


sábado, 22 de agosto de 2009

Primo Levi

Coisas vistas, coisas ditas
Um Vale


Existe um vale que só eu conheço.
Onde não se chega facilmente,
Há rochedos em sua entrada,
Matas, riachos secretos, e águas velozes,
E os caminhos reduzidos a pálidos rastos.
Os mapas o ignoram:
Encontrei o caminho por mim só.
Levei anos para isso,
Vezes, como acontece, errando.
Mas não foi tempo perdido.
Não sei quem lá esteve antes,
Um, ou alguns, ou nenhum:
É questão sem importância.
Existem marcas em lages de pedra,
Algumas belas, todas misteriosas,
Algumas certamente não por mão humana.
No fundo areias e ramos;
No alto, abetos e pinheiros
Sempre mais ralos, atormentados pelo vento,
Que na primavera lhes rouba o pólen.


Quando as primeira marmotas acordam,
Mais alto ainda há sete lagos
De água não contaminada,
Límpida,escura, gélida, e profunda
Neste ponto nossas plantas
Terminam, mas quase na passagem
Existe uma e vigorosa arvore,
Florescente e sempre verde,
Para qual nome nenhum lhe foi dado:
Talvez seja aquela da qual fala o Genesis .
Dá flores e frutas em todas estações,
Mesmo quando a neve lhe pesa sobre os galhos.
Não existe outra da mesma espécie:
Fertliliza-se a si própria
Seu tronco mostra velhas feridas
Das quais escorre a resina
Amarga e doce, portadora do esquecimento.


Primo Levi - Trad: Giselda Leirner




sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Diálogo Filosófico

Coisas vistas, coisas ditas
As coisas não são o que são, mas também não são o que não são - disse o professor suíço ao estudante brasileiro.

Então, que são as coisas? - inquiriu o estudante.
As coisas simplesmente não.
Sem verbo?
Claro que sem verbo. O verbo não é coisa.
E que quer dizer coisas não?
Quer dizer o não das coisas, se você for suficientemente atilado para percebê-lo.
Então as coisas não têm um sim?
O sim das coisas é o não. E o não é sem coisa. Portanto, coisa e não são a mesma coisa, ou o mesmo não.
O professor tirou do bolso uma não-barra de chocolate e comeu um pedacinho, sem oferecer outro ao aluno, porque o chocolate era não.

Carlos Drummond de Andrade


terça-feira, 18 de agosto de 2009

Safo de Lesbos

Coisas vistas, coisas ditas
Tradução: Jaa Torrano





segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A Cor da Romã

Coisas vistas, coisas ditas

de
Sergei Paradjanov (1924-1990)

Filme revolucionário e delirante, é uma das obras primas do cinema do século 20. Não narrativo, o filme (1968) é uma série de quadros, imagens, e evocações da vida de um trovador e músico revolucionário da Armênia.

Com linguagem de sonho, imagens de extrema beleza e o uso limitado da palavra, é um poema que agora remontado, permanece como um dos filmes mais importantes já realizados. Recomendo vivamente que seja visto.

Este é a primeira parte (1/6) de um documentário sobre o cineasta:




domingo, 16 de agosto de 2009

Poema de Jovem desaparecido em Therezien

Coisas vistas, coisas ditas

Concerto no sótão da velha escola



Dedos brancos de coveiros dormem sobre nós a meio centenário
Desde que alguém tocou neste piano
Deixe-o cantar novamente, assim como o fez ontem

Mãos fantasmas que tocam suavemente
Ou o trovão sobre a cabeça do homem, pesada
Como os céus antes da chuva

Anônimo – Trad.Giselda Leirner

O Gueto de Therezien, localizado nas colinas fora de Praga, foi um campo de concentração especial, criado para encobrir o genocídio nazista dos judeus.

sábado, 15 de agosto de 2009

Com uma lupa no Paraíso

Continuo...
Mesmo com seus trinta anos ainda tinha a certeza que trazem em si os meninos prodígios. Era assim considerado por todos que se maravilhavam com sua capacidade de aos sete anos declamar versos inteiros da Divina Comédia, que lhe eram lidas pelo pai, Dr. Carlo, famoso e erudito médico italiano que tinha vindo ao Brasil para dirigir um hospital. Assim que o vi, sabia que seria ele o homem que me acompanharia até o fim de minha vida.


sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Sonetos de Amor



Sonetos de Amor
Italo Eugenio Mauro




I

O HEPTASSÍLABO


Após baldio navegar
aporto na ansiada meta;
o sumo que amor prometa
eu tenho para te amar

e, para te celebrar,
uma linguagem secreta
urdida por um poeta
com fiapos do seu sonhar.

Se eu pra tal fim usasse
um verso formal e extenso
em vez deste: breve e denso,

a Poesia que deste nasce
chegar-te iria murcha e gasta:
o heptassílabo me basta.


quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Com uma lupa no Paraíso

Esta é uma história que vou te contar.
Não sei se termina aqui mesmo, ou se continuarei com ela.
Uma história pode terminar em uma página em uma só, ou não terminar jamais se for vivida por alguém que não morre nunca.
A minha, se não for escrita, será vivída enquanto eu estiver neste lugar misterioso que é a terra e sua vida.

Ele era frágil, não grande nem pequeno,porém a cabeça de ralos cabelos brancos, alçava-se além do corpo. Este, nunca o senti. Era o calor de sua inteligência que me tocava.
Agora, quanto mais longe a lembrança, mais perto o calor em meu peito.
Passo a mão sobre seu livro, eu o acaricio, aquele sobre o qual contarei a história, e é amor o que sinto, que se estende se espraia

Não é só seu livro, mas todos aqueles que me acobertam, me esquentam
Não poderia viver sem eles
Vou parar por aqui. Continuarei...