terça-feira, 12 de outubro de 2010

Cerimonia do Adeus

Coisas vistas, coisas ditas

Gorz e a cerimônia do adeus à mulher

Carta do filósofo austríaco para a esposa revela dificuldade para definir o amor, mas constitui uma prova vigorosa dele

É uma história de amor, mas também sobre a tragédia de não saber explicar filosofica­mente o amor, o que, no caso do filósofo e jornalista aus­tríaco André Gorz (1923-­2007), representou ao mes­mo tempo um desafio e um ajuste de contas com seu passado, antes de se decidir pelo suicídio duplo com sua mulher Dorine, em setem­bro do ano passado. Numa longa carta dirigida a ela e publicada um ano antes, Car­ta a D. (tradução de Celso Azzan Jr., Annablume/Co­sac Naify, 80 págs., R$ 29), Gorz conta como conheceu e se apaixonou por Dorine, reconhecendo que nem mes­mo em seus escritos mais contundentes conseguiu mostrar que o amor por sua mulher foi a razão de sua conversão existencial - em especial Le Traitre, alvo de uma autocrítica impiedosa.
DESTINO - Juntos até na morte , o de maior relevância foi sua denúncia de que o marxis­mo criara o culto da "luta reden­tora" do proletariado. Desani­mado com a instrumentalização de Marx, o filósofo transfor­mou-se num dos maiores líde­res da ecologia política, propon­do, então, uma revolução cultu­ral para acabar também com os excessos do capitalismo. Pa­ra começar, foi pioneiro na de­fesa de uma renda básica para os cidadãos independente do trabalho, influenciando tre­mendamente políticos como o senador Eduardo Suplicy.
Carta a D. não fala de políti­ca. Ou melhor, fala, mas pouco. Gorz toca no tema justamente ao justificar a decisão do casal de se mudar para o campoquan­do a mulher Dorine foi acometi­da de uma aracnoidite que a im­pedia até de se deitar. Instalado numa casado século 19 no vilare­jo de Vosnon, na região de Troyes, o filósofo revê seu pas­sado e tenta encontrar uma res­posta para a mais inquietante de todas as perguntas: por que amamos e queremos ser ama­dos por determinada pessoas e excluímos as demais? Nem seu amigo Sartre conseguiu dar uma resposta minimamente aceitável em O Ser e oNada. Não seria ele que viria a ser o autor dessa definição, ao recapitular sua relação amorosa com Dori­ne, que, na época de Carta a D., estava para completar 82 anos.
Eles viveram juntos 58 anos.
A perspectiva de perder o objeto de sua adoração carregou seu peito de um ''vazio devorador".
Gorz concluía, no silêncio do campo, que amor, política e lite­ratura ocupam um mesmo lu­gar. Formam uma espécie de aleph existencial, um ponto no centro do coração do homem. Sua história íntima com Dorine mostra que, nos momentos mais difíceis - o desemprego, a hostilidade política de seus de­tratores, o rompimento de anti­gas amizades -, foi a presença da mulher que deu forças à sua militância. Gorz diz com todas as letras que Dorine era o "ro­chedo" sobre o qual essa união estava construída. Condenada por uma doença incurável, não restava muito a ele além de se­guir seus passos em direção àmorte. E, também por isso, essa carta é uma resposta a Le Traitre, em que seu juramento de amor é apenas formal, literá­rio. Aqui, ele é para valer.. .,.

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