terça-feira, 28 de maio de 2013

Branca na Catedral


BRANCA NA CATEDRAL

Branca era seu nome e toda pintada de branco sentada na calçada em frente à Catedral de Barcelona, não se movia. As pessoas que passavam às vezes paravam para olhar, algumas aproximavam-se para jogar moedas numa caixa de papelão que ficava a seu lado.
Os olhos negros que eram o único a ressaltar em toda esta brancura olhavam fixamente o vazio sem pestanejar.
Ao lado um rapaz movia-se em sua volta retocando-a com pinceladas que iam e vinham sobre seu corpo rígido. Fazia frio.
Branca levantara-se cedo esta manhã. O céu azul e frio visto pela janela estreita cortou-lhe a vista pela inesperada luz. Enquanto se lavava cuidadosamente, o sabonete cremoso, o hidratante de pele, a colônia esfregada, olhava o espelho em frente e se observava.
Magra, muito magra, os ossos lhe saindo em pontas pelos ombros. Os olhos vermelhos de tanto esfregar. Quando lhe entrava a tinta pelos olhos, doíam, ardiam, e de nada adiantavam os colírios, as lágrimas artificiais, as várias águas, as boricadas.
Porcaria de tinta. Porcaria de homem que me lambuza todos os fins-de-semana e feriados. Quando não me pinta toda do leite branco de sua tinta, me põe o pênis dentro e me molha toda de outro leite tão nojento quanto o primeiro. Isto quando não o põe em minha boca. Por isto tomo café puro. Odeio o leite. O puro leite saído do peito de minha mãe se transformou num líquido branco, viscoso, amargo que sou obrigada a receber. O peito terno, doce de minha mãe transformou-se  no pedaço de carne vermelha que verte outro líquido. Nada mais é terno nem doce. Transformado em veneno.
Ela o via deitado, imerso na calma de um sono bom e sem culpa. Um gato, lânguido, feliz com a luz da janela o estriando em sua doçura.
E eu, seu porco, e eu? Quem sou neste teu sonho?
E se algo sou aí, serei uma mulher? Sabe você o que é mulher. Nem eu sei. Só sei que sou um eu humilhado. Falta ser levada por uma coleira. Nem isto preciso pois vou atrás de ti carregando as latas de tinta branca sem protestar. É assim. Assim tem que ser. É assim que você quer. E eu o que quero? Não sei não me ensinaram a querer. E se acho que sei o que quero logo duvido, e me encolho no canto que meu corpo encerra. Sem perguntas. Sem respostas.
Hoje é domingo. Acordo cedo como sempre, me lavo, me esfrego, tiro com uma bucha os resquícios de tinta branca que ainda se colam em alguns pedaços de meu corpo.
Como sou feia. Gostaria de por um vermelho nas unhas, ou quem sabe na boca. Um vermelho mancharia a pureza do branco que ele usa para me cobrir, um vermelho é a flor do meu sexo que deixou de sê-lo, flor ou sexo.
E se eu fizer um pequeno corte. O sangue verterá, vermelho, que bom um vermelho quente molhado correrá abaixo, minhas coxas se mancharão.
Não sentirei mais frio. Meus pés molhados, eu os vejo bem agora. Não mais brancos nem gelados. Não mais expostos na esquina da Catedral.
São pés de verdade, leves, que andam sós, não vão atrás de ninguém.
Sobem as escadas da Catedral. Lá dentro, escuro, luzes vermelhas, milhares delas, e meus pés caminham sem dor.
Me ajoelho diante da virgem negra. Negro e ouro. Tão calma com o bebê no colo.
Ninguém chora. Eu também não.
Deito-me, o lençol em minha volta encharca. O borrão abre-se, esparrama-se até onde ele dorme.

Ele não sente nada.




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