terça-feira, 25 de agosto de 2009

O Diálogo

Coisas vistas, coisas ditas

O DIÁLOGO
Para Br.SC



Sinto-me cansada. Pesada. Doem-me as pernas, respiro com dificuldade.
Sento-me na praça que nada de praça tem.
Não uma arvore, não um pedaço de verde.
Uma praça, dois bancos. Sento-me em um.
No outro,um jovem muito jovem, rosto pálido. Toca violino. O som é belíssimo.
Para de tocar e olha para mim.
Diz: Chamo-me Bruno. Eu digo: Chamo-me Guitel.
Esta é a historia de meu encontro. Tenho setenta anos. Bruno só trinta.

Volto para meu quarto. Vivemos em um Gueto.
Me ocorre a idéia de que Guitel e Gueto tem algo em comum.
Tenho fome, como um naco de pão amanhecido.
Acendo uma vela Gosto da luz da vela, não tenho outra. Não é minha escolha.
Deito-me, gosto de minha cama de madeira, ficaria sempre ali. Não é minha escolha.
Não sei porque, pulo para fora de madrugada. Esquento um liquido que lembra o café.
É bom.Não o mesmo que tomava com pai e mãe ao meu lado.

Penso em Bruno. Ele aparece e conversamos. Temos tanta coisa para dizer.
Gosto dele, da vela e da cama. Pergunto se ainda poderia aprender a tocar violino.
Ele diz que sim. Acho graça. Aprender algo tão novo, com o que me resta de tempo.
Quero saber dele. De mim tenho pouco a contar.
Parece-me pouco o espaço de uma vida inteira. Não entendo. É pouco, é muito?

Ele fala, e sua fala transforma-se em fala minha. Nossa sorte foi à mesma.
Viveu, morreu. Vivi e morri. Junto a ele.
O diálogo de dois em um. Continuamos falando. Sim, isto é possível.
Não estamos mais aqui.

Giselda Leirner 2.007



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