sábado, 22 de agosto de 2009

Primo Levi

Coisas vistas, coisas ditas
Um Vale


Existe um vale que só eu conheço.
Onde não se chega facilmente,
Há rochedos em sua entrada,
Matas, riachos secretos, e águas velozes,
E os caminhos reduzidos a pálidos rastos.
Os mapas o ignoram:
Encontrei o caminho por mim só.
Levei anos para isso,
Vezes, como acontece, errando.
Mas não foi tempo perdido.
Não sei quem lá esteve antes,
Um, ou alguns, ou nenhum:
É questão sem importância.
Existem marcas em lages de pedra,
Algumas belas, todas misteriosas,
Algumas certamente não por mão humana.
No fundo areias e ramos;
No alto, abetos e pinheiros
Sempre mais ralos, atormentados pelo vento,
Que na primavera lhes rouba o pólen.


Quando as primeira marmotas acordam,
Mais alto ainda há sete lagos
De água não contaminada,
Límpida,escura, gélida, e profunda
Neste ponto nossas plantas
Terminam, mas quase na passagem
Existe uma e vigorosa arvore,
Florescente e sempre verde,
Para qual nome nenhum lhe foi dado:
Talvez seja aquela da qual fala o Genesis .
Dá flores e frutas em todas estações,
Mesmo quando a neve lhe pesa sobre os galhos.
Não existe outra da mesma espécie:
Fertliliza-se a si própria
Seu tronco mostra velhas feridas
Das quais escorre a resina
Amarga e doce, portadora do esquecimento.


Primo Levi - Trad: Giselda Leirner




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