
Com A dupla vida de Véronique Krzystof Kieslovski reinventa um velho gênero da literatura e do cinema fantástico, a narrativa sobre o Doppelgänger ou o duplo. Desde Adelbert von Chamisso, passando por escritores tão díspares como Edgar Allan Poe ("William Wilson") e Dostoiévski, o tema do duplo se desdobra na teoria psicanalítica moderna. Não por acaso, um dos discípulos de Freud, Otto Rank, escreve um ensaio seminal sobre o tema, Der Doppelgänger, a partir de um filme de mesmo título do cinema silencioso alemão (1913). Mas se, na maior parte dos casos, o Duplo é visto ou como figura fantasmática (e fantasmagórica), ou como projeção esquizofrênica da personalidade, em A dupla vida de veronique Kieslovski toca nos secredos da Criação divina. No filme, a polonesa Werônika começa a atingir o auge de sua carreica como cantora lírica quando é subitamente acometida por dores no peito, que a levarão a um infarto e à morte em plena sala de concertos. Em Paris, uma outra musicista, Véronique (ambas vividas pela bela e magistral Irene Jacob), começa a sentir dores no peito, e após exames decide abandonar a carreira de cantora. Véronique se aproxima então de um marionetista cuja arte revela a Véronique o pressentimento do transcendente. Véronique quer entender, mas tudo o que lhe é possível é pressentir que não está sozinha neste mundo, ou que não esteve sozinha durante parte de sua vida. Assim como Weronika, ela viveu, durante um brevíssimo tempo, um encontro inesperado com a sua Outra, e esse encontro acaba envolvendo as duas numa trama de morte e vida. Tal como ocorre em outros filmes de Kieslovski, o sublime se revela nas imagens mais banais, e a poesia do filme decorre de imagens de pequenos detalhes, como uma luz crepuscular filtrada por uma janela, ou a poeira iluminada que cai de um teto de madeira. São as "lágrimas das coisas", como mostra Slavoj Zizek, que nos levam às verdadeiras lágrimas diante de um filme de Kieslovski. Mas é claro que a imagem visual de A dupla vida de Véronique não teria o mesmo impacto sem a colaboração vital de Zbigniew Preisner, parceiro de Kieslovski em quase todos os seus filmes. Aqui, como em A liberdade é azul, a música não é um elemento a mais, mas o elemento condutor da narrativa, tal como na concepção operística de Wagner.
(Texto extraido do site http://www.apeledapelicula.com.br/ detalhe.php?dd=26)
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