terça-feira, 1 de setembro de 2009

Lembranças de Anatol

Coisas vistas, coisas ditas


Giselda Leirner

Quando me convidaram para dizer algumas palavras
sobre Anatol Rosenfeld, pensei em captar através da
memória o que foi Anatol para mim.
A memória constrói ficções, armadilhas e a verdade
já não é mais aquilo que foi. O que resta é um sentimento
no lugar de um conhecimento.
Dizer dos seus escritos críticos agudos e às vezes
irônicos que nos encantavam pela pureza do estilo e pela
inteligência? Dizer que era um intelectual cuja contribuição
filosófica e principalmente ética foi da maior importância
para a formação de nossas idéias?
Tudo isto já foi dito e quem o conheceu ou conviveu
com suas idéias já o sabe. O que eu queria era transmitir
Anatol pessoa inteira. E isso é muito difícil. A memória,
o tempo deixam-nos sombras, um gesto, uma voz que
era... Uma voz suave e segura com um ligeiro e arranhado
sotaque alemão.
O português impecável. Nunca o vi rir. Sorria, quando
muito. Severo, com um olhar meio brincalhão de
quem sabe como vai acabar a história.

Lembro-me de quando lhe entreguei alguns poemas
de adolescente e ele, com todo o respeito e seriedade, fez
anotações críticas com sua letra miúda, não deixando
transparecer, no tratamento que deu ao trabalho, nada do
pouco valor literário que este realmente continha. Lembro-
me de nossas longas discussões sobre cinema e,
principalmente, literatura. Falávamos, falávamos e sempre
acabávamos em Thomas Mann. Estas conversas vinham
como uma espécie de gratificação que nos dávamos
depois das aulas onde estudávamos, parágrafo por parágrafo,
pesados textos filosóficos. Uma outra gratificação
era o chá com bolo depois da aula, servido na copa da
casa do Jacó Guinsburg e da sua mulher Gita.
E todos nós, Gita e Jacó, Regina e Boris Schnaiderman,
Roberto Schwarz, Zulmira Tavares, Leo e Rita
Seincman e tantos outros ficávamos até bem tarde discutindo,
e o que discutíamos era tão vivo e rico como o que
tínhamos estudado.
E assim era para Anatol a vida, o pensamento, as
idéias: uma coisa única, e desta coisa única todos nós
participamos e nos enriquecemos.
Ética e Estética, Arte e Vida, Pensamento e Existência,
tudo. absolutamente integrado em uma vida de amor à
Arte e de fé no homem. A Vida de Anatol.



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