quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Abismo de Trevas

Coisas vistas, coisas ditas
Viemos de um abismo de trevas; findamos num abismo

de trevas: ao intervalo de luz entre um e outro damos o nome

de vida.

Tão logo nascemos, principia o retorno; partida e volta

são simultâneos; morremos a cada instante. Por isso muitos

proclamaram: O escopo da vida é a morte.

Todavia, tão logo nascemos, principia o esforço de criar, de

tramar, de fazer da matéria vida: a cada instante nascemos. Por

isso muitos proclamaram: O escopo da vida efêmera é a imortalidade.

Nos transitórios corpos vivos, lutam duas correntes: 1°a ascendente,

rumo à síntese, à vida, à imortalidade; 2° a descendente,

rumo à dissolução, à matéria, à morte.

E as duas correntes se originam no imo da substância

primeva. De começo, a vida surpreende; parece uma reação ilegítima,

desnaturada e efêmera às trevas das fontes eternas;

mas, quando nos aprofundamos, percebemos que a Vida é o

próprio curso, sem princípio nem fim, do Universo. Se assim não

fosse, de onde viria a força sobre-humana que nos lança do

incriado ao criado e nos impele - plantas, animais, homens-à

luta? As duas correntes antagônicas são pois sagradas.

Cumpre-nos, então, aceder a uma visão que articule e

harmonize estes dois prodigiosos impulsos sem princípio nem

fim, e por ela regular o nosso pensamento e a nossa ação.



Nikos Kazantzákis

Ascese



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