
Viemos de um abismo de trevas; findamos num abismo
de trevas: ao intervalo de luz entre um e outro damos o nome
de vida.
Tão logo nascemos, principia o retorno; partida e volta
são simultâneos; morremos a cada instante. Por isso muitos
proclamaram: O escopo da vida é a morte.
Todavia, tão logo nascemos, principia o esforço de criar, de
tramar, de fazer da matéria vida: a cada instante nascemos. Por
isso muitos proclamaram: O escopo da vida efêmera é a imortalidade.
Nos transitórios corpos vivos, lutam duas correntes: 1°a ascendente,
rumo à síntese, à vida, à imortalidade; 2° a descendente,
rumo à dissolução, à matéria, à morte.
E as duas correntes se originam no imo da substância
primeva. De começo, a vida surpreende; parece uma reação ilegítima,
desnaturada e efêmera às trevas das fontes eternas;
mas, quando nos aprofundamos, percebemos que a Vida é o
próprio curso, sem princípio nem fim, do Universo. Se assim não
fosse, de onde viria a força sobre-humana que nos lança do
incriado ao criado e nos impele - plantas, animais, homens-à
luta? As duas correntes antagônicas são pois sagradas.
Cumpre-nos, então, aceder a uma visão que articule e
harmonize estes dois prodigiosos impulsos sem princípio nem
fim, e por ela regular o nosso pensamento e a nossa ação.
Nikos Kazantzákis
Ascese
de trevas: ao intervalo de luz entre um e outro damos o nome
de vida.
Tão logo nascemos, principia o retorno; partida e volta
são simultâneos; morremos a cada instante. Por isso muitos
proclamaram: O escopo da vida é a morte.
Todavia, tão logo nascemos, principia o esforço de criar, de
tramar, de fazer da matéria vida: a cada instante nascemos. Por
isso muitos proclamaram: O escopo da vida efêmera é a imortalidade.
Nos transitórios corpos vivos, lutam duas correntes: 1°a ascendente,
rumo à síntese, à vida, à imortalidade; 2° a descendente,
rumo à dissolução, à matéria, à morte.
E as duas correntes se originam no imo da substância
primeva. De começo, a vida surpreende; parece uma reação ilegítima,
desnaturada e efêmera às trevas das fontes eternas;
mas, quando nos aprofundamos, percebemos que a Vida é o
próprio curso, sem princípio nem fim, do Universo. Se assim não
fosse, de onde viria a força sobre-humana que nos lança do
incriado ao criado e nos impele - plantas, animais, homens-à
luta? As duas correntes antagônicas são pois sagradas.
Cumpre-nos, então, aceder a uma visão que articule e
harmonize estes dois prodigiosos impulsos sem princípio nem
fim, e por ela regular o nosso pensamento e a nossa ação.
Nikos Kazantzákis
Ascese


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